![]() |
MOVIMENTO "VEM PRA RUA!" 2013 |
Como se a vivência de milhões de pessoas nas ruas inventando uma
coreografia política e recusando carros de som não fosse "concreto"
Slavoj Zizek reconheceu no "Roda Viva" que é mais fácil saber
o que quer uma mulher, brincando com a "boutade" freudiana, do que
entender o Occupy Wall Street.
Não é diferente conosco. Em vez de perguntar o que "eles", os
manifestantes brasileiros, querem, talvez fosse o caso de perguntar o que a
nova cena política pode desencadear. Pois não se trata apenas de um
deslocamento de palco --do palácio para a rua--, mas de afeto, de contaminação,
de potência coletiva. A imaginação política se destravou e produziu um corte no
tempo político.
A melhor maneira de matar um acontecimento que provocou inflexão na
sensibilidade coletiva é reinseri-lo no cálculo das causas e efeitos. Tudo será
tachado de ingenuidade ou espontaneismo, a menos que dê "resultados
concretos".
Como se a vivência de milhões de pessoas ocupando as ruas, afetadas no
corpo a corpo por outros milhões, atravessados todos pela energia
multitudinária, enfrentando embates concretos com a truculência policial e
militar, inventando uma nova coreografia, recusando os carros de som, os
líderes, mas ao mesmo tempo acuando o Congresso, colocando de joelhos as
prefeituras, embaralhando o roteiro dos partidos --como se tudo isso não fosse
"concreto" e não pudesse incitar processos inauditos, instituintes!
Como supor que tal movimentação não reata a multidão com sua capacidade
de sondar possibilidades? É um fenômeno de vidência coletiva --enxerga-se o que
antes parecia opaco ou impossível.
E a pergunta retorna: afinal, o que quer a multidão? Mais saúde e
educação? Ou isso e algo ainda mais radical: um outro modo de pensar a própria
relação entre a libido social e o poder, numa chave da horizontalidade, em
consonância com a forma mesma dos protestos?
O Movimento Passe Livre, com sua pauta restrita, teve uma sabedoria
política inigualável. Soube até como driblar as ciladas policialescas de
repórteres que queriam escarafunchar a identidade pessoal de seus membros
("Anota aí: eu sou ninguém", dizia uma militante, com a malícia de
Odisseu, mostrando como certa dessubjetivação é condição para a política hoje.
Agamben já o dizia, os poderes não sabem o que fazer com a "singularidade
qualquer").
Mas quando arrombaram a porteira da rua, muitos outros desejos se
manifestaram. Falamos de desejos e não de reivindicações, porque estas podem
ser satisfeitas. O desejo coletivo implica imenso prazer em descer à rua,
sentir a pulsação multitudinária, cruzar a diversidade de vozes e corpos, sexos
e tipos e apreender um "comum" que tem a ver com as redes, com as
redes sociais, com a inteligência coletiva.
Tem a ver com a certeza de que o transporte deveria ser um bem comum,
assim como o verde da praça Taksim, assim como a água, a terra, a internet, os
códigos, os saberes, a cidade, e de que toda espécie de "enclosure" é
um atentado às condições da produção contemporânea, que requer cada vez mais o
livre compartilhamento do comum.
Tornar cada vez mais comum o que é comum --outrora chamaram isso de
comunismo. Um comunismo do desejo. A expressão soa hoje como um atentado ao
pudor. Mas é a expropriação do comum pelos mecanismos de poder que ataca e
depaupera capilarmente aquilo que é a fonte e a matéria mesma do contemporâneo
--a vida (em) comum.
Talvez uma outra subjetividade política e coletiva esteja (re)nascendo,
aqui e em outros pontos do planeta, para a qual carecemos de categorias. Mais
insurreta, de movimento mais do que de partido, de fluxo mais do que de
disciplina, de impulso mais do que de finalidades, com um poder de convocação incomum,
sem que isso garanta nada, muito menos que ela se torne o novo sujeito da
história.
Mas não se deve subestimar a potência psicopolítica da multidão, que se
dá o direito de não saber de antemão tudo o que quer, mesmo quando enxameia o
país e ocupa os jardins do palácio, pois suspeita que não temos fórmulas para
saciar nosso desejo ou apaziguar nossa aflição.
Como diz Deleuze, falam sempre do futuro da revolução, mas ignoram o
devir revolucionário das pessoas.
PETER PÁL PELBART, 57, filósofo húngaro, é professor titular de
filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tradutor de Deleuze
e autor de "Vida Capital"
COMENTÁRIOS:De: Lucia Ozorio <lozorio@gmail.com>
Querida Odila
Muito importante este seu gesto de trazer Peter Pélbart para a educação
popular. Pensador dos fluxos, dos desejos, dos processos de subjetivação pode
iluminar muitas disussões sobre nosso momento historico que
inevitavelmente atravessa a educação popular. Bjs. Lucia
Acredito que no caminho para refletir o nosso processo histórico
no Brasil, enquanto militantes da educação popular, muito tem o Peter a
contribuir. Assim como o Deleuze, Guatarri e Foucalt.
Pois percebo o tempo
todo nas rodas, discursos e expressões nas rodas de coversa populares ideias e
pensamentos, os quais dialogam com esses caras.
Energia!!!