IMPOSTOS EM SÃO PAULO

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domingo, 4 de setembro de 2011

JOÃO BRAÇO, GARIMPEIRO E O "CONVITE- POEMA" DE CARLOS RODRIGUES BRANDÃO

 A todas as pessoas amigas de perto e de longe,
Faz muitos (ou alguns) anos eu participei de dois festivais de inverno da UFMG, em Diamantina. Em um deles coordenei uma curiosa oficina sobre cultura. Parte de nosso trabalho de uma semana de julho foi uma atividade de exercícios de pesquisa-breve em Diamantina e arredores, envolvendo os mais diferentes temas, entre os mais diversos atores. Eu mesmo resolvi fazer o meu pequeno exercício de pesquisa local. Fui recomendado a ir a um povoado “do outro lado da serra”, que foi um antigo lugar de intensa exploração de diamantes. Seu nome: Mendanha. Foi o único lugar em toda a minha vida em que me deparei com uma ponte sobre o rio, com vários bancos encostados nas grades de um lado e do outro, sobre o rio Jequitinhonha. Ela era uma espécie de pequena praça de encontros e conversas. E lá, entre outras pessoas de passagem, encontrei um velho negro, garimpeiro de vida inteira. O tempo todo ele usou para si mesmo este nome: João Braço.Convivemos por quatro dias. Conversei muito com ele em sua minúscula casa. Ele mesmo sugeriu irmos juntos a um pequeno riacho próximo (mas não tanto) à sua casa. Lembro-me de sua figura, magra, ossuda e, no entanto, com mais de 90 anos, cheia de uma energia de vida que apenas uma gente assim preserva ao longo de tantos anos. Lembro-me dele colocando no alto da cabeça três peneiras de garimpeiro que ainda preservava, e apoiando sobre o ombro direito uma enxada própria para ofícios de pequena garimpagem.Estivemos várias horas na beira do riacho, ou sobre as areias, dentro dele. João Braço garimpou como – segundo ele – sempre fez, ao longo de mais de 70 anos. E me ensinava os pequenos segredos do ofício. Garimpei um pouco também, enquanto entre risos ele orientava a minha falta de jeito para o garimpo. Claro, não conseguimos diamante algum. E ele mesmo confessou que fazia anos não tirava das lavras sequer um pequeno diamante. Voltei com algo de um maior valor: várias fitas de entrevistas e mais um repertório de fotografias. Felizes tempos de “gravador de fita” e de “máquina fotográfica de filme”. Em meu livro: A Clara Cor da Noite Escura há algumas fotos dele e trechos de sua fala. Elaine de Lemos  participava então de um projeto meu da UNICAMP. O nome, poético, evocava um poema de Carlos Drummond de Andrade: O Sentimento do Mundo. Entre outros trabalhos de um tempo pós-projeto, ela resolveu reunir as fotos, alguns trechos das entrevistas de João Braço, alguns escritos meus e mais alguns estudos dela, e colocar tudo em um livro. Seu nome: João Braço – ensaios, fotos e escritos sobre um homem chamado João. Ele acaba de ser publicado  e o que acompanha esta mensagem  é a anúncio de seu lançamento. Será no dia 9 de setembro em Piracicaba. Quem puder, venha. Será uma alegria. Não sei se Elaine colocará o livro a venda em livrarias. No entanto ela e eu teremos em mãos uma quantidade suficiente para doar a algumas pessoas... e para vender a outras. Não combinamos ainda o seu valor. De minha parte (e espero que dela também) penso, como sempre, em uma venda de economia solidária. Algo em que o valor vale mais do que o preço. Assim que tivermos chegado a um acordo em uma nova mensagem avisarei a vocês. Por agora vivamos juntas/os a alegria de mais um livro criado a várias mãos, mentes e corações. E, mais ainda, um livro que é a imagem e é a memória deste velho garimpeiro a quem dediquei um dos poemas de Os Nomes – escritos sobre o outro. Um homem de quem, afora as lições pouco aprendidas  sobre o garimpo de diamantes, aprendi muito a respeito de um tesouro bem maior:  a vida. Abraço vocês com carinho, Carlos Brandão
O Planeta de Diamante está escondico!!


PS. Escrevo esta mensagem na mesma noite em que leio na internet que astrônomos descobriram um planeta a 4.000 anos luz da Terra formado apenas de carbono. E imaginam que o carbono estará nele compactado de tal maneira que talvez ele seja todo “um planeta de diamante”.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

DAS HISTÓRIAS INFANTIS: MONTEIRO LOBATO MAIS UMA VEZ CENSURADO PELO ESTADO? -click aqui no título

Desde o Estado Novo, Monteiro Lobato é censurado ! A Emília, bonequinha nem um pouco Barbie, aventura se com os personagens do SÍTIO DO PICAPAU AMARELO por ambientes inusitados...vindos desde a MITOLOGIA GREGA até o cotidiano do Sítio. Eu era incentivada por meus pais a ler. Gostávamos de conversar sobre estas aventuras.É uma pena que, a Educação no Brasil, tenha tanto medo do DEBATE ou da exposição na dificuldade que adultos ( incluindo professores e pais) tem com a imaginação fértil e instigante das crianças.Sugiro que todos nós paremos para pensar no significado destas medidas do Governo Federal. A postagem do dia 3 de novembro de 2010 do BLOG PAIDÉIA VIRTUAL merece ser lido e avaliado (click no título acima)http://paideiavirtual.blogspot.com/
e veja o artigo de Marisa Lajolo no final da postagem deste BLOG)
Comentários pela IMPRENSA:
30/10/2010 1
CNE quer que Monteiro Lobato com trechos racistas tenha nova edição  Parecer diz que é preciso contextualizar racismo em 'Caçadas de Pedrinho'. Conselho sugere exclusão de livros semelhantes em programas do governo.
05/11/2010 http://g1.globo.com/vestibular-e-educacao/noticia/2010/11/livro-de-monteiro-lobato-e-liberado-para-ser-usado-em-sala-de-aula.html   
Polêmica de racismo ronda livro de Monteiro Lobato  
Especialistas levantarama questão e MEC foi analisar se a obra 'Caçadas de Pedrinho' pode ser proibida de ser usada em escolas
Citações à personagem Tia Anastácia no livro 'Caçadas de Pedrinho', de Monteiro Lobato, foram consideradas racistas por especialistas. O Ministério da Educação estuda a proibição da obras nas escolas. A professora aposentada da Unicamp, Marisa Lajolo, é contra a advertência sobre o racismo do livro. Já Francisco Cordão, da CNE, diz que as escolas devem trabalhar o assunto.
 http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1628408-17665-309,00.html 

Todas as Vidas  de Cora Coralina ( Ainda não censurada)
Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo. Benze quebranto.Bota feitiço... Ogum. Orixá. Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim a lavadeira do Rio Vermelho. Seu cheiro gostoso d'água e sabão. Rodilha de pano.Trouxa de roupa, pedra de anil.Sua coroa verde de São-caetano. Vive dentro de mim a mulher cozinheira. Pimenta e cebola.Quitute bem feito. Panela de barro. Taipa de lenha.Cozinha antigatoda pretinha. Bem cacheada de picumã.Pedra pontuda.Cumbuco de coco. Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada,sem preconceitos,de casca-grossa,de chinelinha, e filharada. Vive dentro de mim a mulher roceira. -Enxerto de terra,Trabalhadeira. Madrugadeira. Analfabeta. De pé no chão.Bem parideira.Bem criadeira.Seus doze filhos, Seus vinte netos.
Vive dentro de mim a mulher da vida. Minha irmãzinha... tão desprezada, tão murmurada...Fingindo ser alegre seu triste fado. Todas as vidas dentro de mim: 

Na minha vida - a vida mera das obscuras!
NEGRINHA ( CONTO DE MONTEIRO LOBATO)
Negrinha é um conto de Monteiro Lobato, escrito pela primeira vez em 1920, cuja temática é, ainda, atual. O conto retrata, através da visão do autor, as vicissitudes da vida de uma órfã negra. Nascida na senzala, de mãe escravizada. A personagem passa pelas agruras de viver seus primeiros anos de vida em cantos escuros, sobre velha esteira e trapos imundos. Era escondida porque a patroa não gostava de crianças. A patroa é uma senhora viuva, sem filhos, de virtudes cristãs, envolvida com questões comezinhas e a desopilar sua ira sobre a criança  que não tinha.  Não perdoava o choro da criança. Saia com impropérios impublicaveis longo que o ouvia. Negrinha cresceu sem infância, magra, atrofiada. Sempre assustada. Apanhava de todos(as) e por qualquer motivo. Não brincava, vivia sentada em um canto. Sua única diversão era ouvir o relógio cuco bater as horas. Sem palavras de carinho, era achincalhada com termos como: Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, mosca morta, sujeira, cachorrinha, coisa ruim, lixo, etc. Até de bubônica fora apelidada. Contudo, tendo gostado de tal epíteto suprimiram-no. Não lhe era dado nem esse gosto. Inácia, a patroa, era mestra na arte de maltratar. Aplica em Negrinha beliscões e cróques como derivativo para amainar sua revolta contra o que entendia como usurpação: o direito de continuar a ter pessoas escravizadas sobre seu jugo – devido a abolição.  Via-se como uma benfeitora por criar Negrinha - órfã. No entanto, tortura Negrinha com ovo quente na boca. Negrinha, não tinha nome era negrinha. Não brincava, logo não conhecia boneca. Certa vez Inácia recebeu a visita de duas sobrinhas que mostraram a aturdida criança uma boneca de cabelos amarelos, que falava e dormia. Extasiada, Negrinha, esquecendo dos possíveis castigos procurou compartilhar daquele momento mágico – sem, contudo toca-la.Apiedando-se Inácia permite que ela compartilhe com as hospedes. A partir deste momento Negrinha começa a perceber o significado do que é brincar. Descobre-se como ser humano. Deixa de ser coisa. Entristece e morre delirando com bonecas, todas louras, de olhos azuis
.Crítica
Monteiro Lobato é considerado um dos maiores escritores de literatura infantil e Infanto-Juvenil tendo suas obras traduzidas em várias línguas. Um de seus clássicos é o Sítio do Pica-pau Amarelo. Entretanto, para a população negra e ou afro-brasileira, suas obras prestam um desastroso desserviço para assunção da identidade étnico-racial[i], assim como, por conseqüência, para a auto-estima[ii] desse povo – particularmente, para as crianças negras.
Heloisa Pires Lima, enfatiza que “a literatura infanto-juvenil apresenta-se como um filão de uma linguagem a ser conhecida, pois nela reconhecemos um lugar favorável ao desenvolvimento do conhecimento social e à construção de conceitos” (2005, p. 101). Mesmo tendo em consideração o momento na história em que foram concebidas tais obras, elas não deixam expressar “crenças e valores embutidos na nossa cultura literária a respeito da população negra”.(LIMA, 2005, p. 104).
Conseqüentemente, neste sentido, as obras de Monteiro Lobato retratam aquilo que as classes dominantes percebem, dentro de sua visão étno-eurocêntrica e judaíco-cristã, acerca da população negra. David Brookshaw, literato inglês, em seu livro Raça e Cor na Literatura Brasileira ratifica tal preocupação quando aponta, em estudo sobre as obras de Monteiro Lobato, o que se segue:O ataque duplamente cortante dirigido ao negro considerando-o de um lado um animal selvagem e, de outro, possuidor de certas qualidades infinita e convenientemente resignadas, não subversivas, é muito perceptível nos escritos do paulista sincero Monteiro Lobato. Em seu conto Bocatorta tem-se a descrição de um negro “fantasma” e ladrão de sepulturas em termos satânicos, ao passo que em O jardineiro Timóteo, o velho jardineiro simboliza a sensibilidade e, na verdade, os velhos valores coloniais do tempo do império (BROOKSHAW, 1983, p. 68).
Em outro momento, Brookshaw, alerta que:
A própria negrofobia de Monteiro Lobato deve ser atribuída, pelo menos em parte, ao fato de que era de São Paulo, uma cidade onde negros [...] eram minoria, e onde o racismo nos anos posteriores à Abolição era mais manifesto do que em qualquer outro lugar (1983 p. 69).
Enfatiza, que Monteiro Lobato: 
Simpatizava com o negro contanto que fosse selvagem, pois somente deste modo era autêntico. Em O Presidente Negro, descreve um imaginário líder negro americano, Jim Roy, como um pitoresco e levemente selvagem demagogo (1983, p. 71).
Finaliza, afirmando que: 
E por último, mas não menos importante, são as histórias para crianças de Monteiro Lobato, inspiradas no folclore afro-brasileiro, que retratam muito da vida nas velhas fazendas. Não se pode duvidar, embora quão charmosas essas histórias possam ser, que a visão do mundo antilógico da criança, contribuiu e reforçou, por gerações a fora, o estereótipo do negro como uma criatura fundamentalmente ilógica, para não ser levada a sério no mundo real do adulto (BROOKSHAW, 1983, p. 71).
Ana Célia da Silva, educadora, e militante do movimento negro, no seu livro Desconstruindo a Discriminação do Negro no Livro Didático, assevera que:
Uma ilustração da “Tia Nastácia” de perfil, assemelhada à ilustração do porco Rabicó, personagens de Monteiro Lobato (Ciranda do Saber, 2º série, p. 58) foi corrigida sugerindo-seque a expressão fisionômica da “Tia Nastácia” fosse humanizada, dissociando-a da figura do porco Rabicó (SILVA, 2003, p. 36-37).
Em Negrinha, observa-se desde a apresentação do livro um descuidado no trato com a questão racial que começa ao não se conseguir relacionar “expressões jocosas quando se referem a pessoas negras” ao preconceito racial. Há uma aparente boa vontade, contudo, o arremedo não vai além da visão obtusa permeada pela ideologia da “democracia racial” brasileira. O conto, por si só, ratifica todas as observações asseveradas através de inúmeros(as) críticos(as) da literatura de Monteiro Lobato e, para tanto, ressaltamos as que se seguem:
-          A personagem negra não tem nome;
-          Simboliza passividade/resignação doentia;
-          É repositório de epítetos e estereótipos negativos;
-          O ponto positivo de referência é etnocêntrico quando relacionado às crianças brancas; e,
-          O conto denota uma visão judaico-cristã;
-          O conto faz conexão ao significado da brincadeira[iii] , porém, dentro da visão etnocêntrica.
O conto Negrinha pode ser de grande utilidade para análise antropológica, pois contribui para a percepção dos etnocentrismos e suas ideologias subjacentes, assim como, revela um determinado contexto. 
REFERÊNCIA:
BROOKSHAW, David. Raça e Cor na literatura brasileira.  Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983.
BROUGÉRE, Gilles. Os brinquedos e a socialização da criança. In. ______. Brinquedo e cultura. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2001, p. 61. (Coleção Questões da Nossa Época; v. 43)
LOBATO, Monteiro. Negrinha. Bauru, SP: EDUSC, 2000.
LIMA, Heloisa Pires. Personagens negros: um breve perfil na literatura infanto-juvenil. In. MUNAGA, Kabengele.(Org.) Superando o Racismo na Escola. 2. ed. rev. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2005, 101-115. 
      OGUNBIYI, Adomair O. Castelo e São Cristóvão: Comunidades Remanescentes de  Quilombo e suas respectivas Diásporas – uma experiência em identidade étnico-racial e   resiliência, no Maranhão. Apresentado no III Congresso de Pesquisadores Negros.  
UFMA, APN: São Luís, 2004, p. 10-12.                                                                                                                                          
SILVA, Ana Célia da. Desconstruindo a discriminação do negro no livro didático.  Salvador: EDUFBA, 2003.
Bi Olorun ba fe!
Adomair O. Ogunbiyi
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Quem paga a música escolhe a dança?
Marisa Lajolo [1]
“Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso . Narra as aventuras da turma do sítio de Dona Benta primeiro às voltas com a bicharada da floresta próxima  e, depois, com uma comissão do governo encarregada de caçar um rinoceronte fugido de um circo. Nos dois episódios prevalecem o respeito ao leitor, a visão crítica da realidade, o humor fino e inteligente.    Na primeira narrativa, a da caçada da onça, as armas das crianças são improvisadas e na hora agá  não funcionam. É apenas graças à esperteza e inventividade dos meninos que eles conseguem matar a onça e arrastá-la até a casa do sítio. A morte da onça provoca revolta nos bichos da floresta e eles planejam vingança numa assembléia muito divertida : felinos ferozes invadem o sítio e –de novo- é apenas graças à inventividade e esperteza das crianças ( particularmente de Emília) que as pessoas escapam de virar comida de onça.  Na segunda narrativa, a fuga de um rinoceronte de um circo e seu refúgio no sítio de dona Benta leva para lá a Comissão que o governo encarregou de lidar com a questão. Os moradores do sítio desmascaram a corrupção e o corpo mole da comissão, aliam-se ao animal cioso da liberdade conquistada e espantam seus proprietários. E, batizado Quindim, o  rinoceronte fica para sempre incorporado às aventuras dos picapauzinhos. Estas histórias constituem o enredo do livro que parecer recente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir de denúncia recebida,   quer proibir de integrar  acervos com os quais programas governamentais compram livros para bibliotecas escolares . O CNE  acredita que o livro veicula conteúdo racista e preconceituoso e que os professores não têm competência para lidar com tais questões. Os argumentos que fundamentam as acusações de racismo e preconceito são  expressões pelas quais  Tia Nastácia é referida no livro, bem como a menção à África como lugar de origem de animais ferozes.
Sabe-se hoje que diferentes leitores interpretam um mesmo texto de maneiras diferentes. Uns podem morrer de medo de uma cena que outros acham engraçada. Alguns  podem sentir-se profundamente tocados por passagens que deixam outros impassíveis.  Para ficar num exemplo brasileiro já clássico, uns acham que Capitu ( D. Casmurro, Machado de Assis, 1900)   traiu mesmo o marido, e outros acham que não traiu, que o adultério foi fruto da mente de Bentinho.  Outros ainda acham que Bentinho é que namorou Escobar .. !
É um grande avanço nos estudos literários esta noção mais aberta do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão num livro. Ela se fundamenta no pressuposto segundo o qual, dependendo da vida que teve e que tem, daquilo em que acredita ou desacredita, da situação na qual lê o que lê, cada um entende uma história de um jeito.  Mas essa liberdade do leitor vive sofrendo atropelamentos. De vez em quando, educadores de todas as instâncias – da sala de aula ao Ministério de Educação-   manifestam desconfiança da capacidade de os leitores se posicionarem de forma correta  face ao que lêem .
Infelizmente, estamos vivendo um desses momentos.
Como os antigos diziam  que quem paga a música escolhe a dança, talvez se acredite hoje ser correto que  quem paga o livro escolha  a leitura que dele se vai fazer. A situação atual tem sua (triste) caricatura no lobo de Chapeuzinho Vermelho que não é mais abatido pelos caçadores, e pela dona Chica-ca que não mais atira um pau no gato-to. Muda-se o final da história e re-escreve-se a letra da música porque se  acredita que leitores e ouvintes sairão dos livros e das canções abatendo lobos e caindo de pau em bichanos . Trata-se de uma idéia pobre,  precária e incorreta que além de considerar as crianças como  tontas, desconsidera a função simbólica da cultura. Para ficar em um exemplo clássico, a psicanálise e os estudos literários ensinam que  a madrasta malvada de contos de fada não desenvolve hostilidade conta a nova mulher do papai, mas – ao contrário-  pode ajudar a criança a não se sentir muito culpada nos momentos em que odeia a mamãe, verdadeira ou adotiva...
Não deixa de ser curioso notar que esta pasteurização pretendida para os livros infantis e juvenis  coincide com o lamento geral  – de novo, da sala de aula ao Ministério da Educação—pela precariedade da leitura praticada na sociedade brasileira.    Mas, como quem tem caneta de assinar cheques e de encaminhar leis tem o poder de veto, ao invés de refletir e discutir,  a autoridade veta . E veta porque, no melhor dos casos e muitas vezes com a melhor das intenções,  estende suas reações a certos livros a um numeroso e anônimo universo de leitores  . . 
No caso deste veto a “Caçadas de Pedrinho”  ,   a Conselheira Relatora Nilma Lino Gomes  acolhe denúncia de Antonio Gomes da Costa Neto que entende como manifestação de preconceito e intolerância  de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas ;  (...) aponta menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano , que se repete em vários trechos do livro analisado   e exige da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura. Independentemente do imenso  equívoco em que, de meu ponto de vista, incorrem o denunciante e o CNE que aprova por unanimidade o parecer da relatora, o episódio torna-se assustador pelo que endossa, anuncia e recomenda de patrulhamento da leitura na escola brasileira. A nota exigida  transforma livros em produtos de botica, que devem circular  acompanhados de bula com instruções de uso.  O que a nota exigida  deve explicar ?  o que significa esclarecer ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura  ? A quem deve a editora encomendar  a nota explicativa ?  Qual seria o conteúdo da nota solicitada ? A nota deve fazer uma auto-crítica ( autoral, editorial ? ) , assumindo que o livro contém estereótipos ? a nota deve informar ao leitor que “Caçadas de Pedrinho” é  um livro racista ?  Quem decidirá se a nota explicativa cumpre efetivamente o esclarecimento exigido pelo MEC? 
As questões poderiam se multiplicar. Mas não vale a pena. O panorama que a multiplicação das questões delineia é por demais sinistro .  Como fecho destas melancólicas maltraçadas aponte-se que qualquer nota no sentido solicitado – independente da denominação que venha a receber, do estilo em que seja redigida, e da autoria que assumir- será um desastre. Dará sinal verde para uma literatura autoritariamente auto-amordaçada.  E este modelito   da mordaça de agora talvez seja  mais pernicioso  do que a ostensiva queima de livros em praça  pública, número medonho mas que de vez em quando entra em cartaz na história desta nossa  Pátria amada idolatrada salve salve.  E salve-se quem puder ... pois desta vez  a censura não quer determinar apenas  o que se pode ou não se pode ler, mas é mais sutil, determinando como  se deve ler o que se lê  !

[1] Prof. Titular (aposentada) da UNICAMP; Prof. da Universidade Presbiteriana Mackenzie;  Pequisadora Senior do CNPq.; Organizadora ( com João Luís Ceccantini)  do livro  de Monteiro Lobato livro a livro (obra infantil) , obra que recebeu o Prêmio Jabuti 2010 como melhor livro de Não Ficção.   

  • João Toledo Não é muito perigoso admitir a hipótese de q alguém possa censurar um autor porque não gosta da fala de um personagem? Ai não é deixar a burrice se tornar ditadora, afinal o melhor texto contra o racismo ja escrito no Brasil é negrinha do Monteriro Lobato.

  • Maria Sylvia Toledo
    APRENDI MUITO COM AS FALAS DA EMÍLIA E OS BONDOSOS ENSINAMENTOS DA DONA BENTA, POIS ELA NOS FAZIA AMAR MUITO A TIA NASTÁCIA, SEU AMOR PELAS CRIANÇAS E SEUS DELICIOSOS BOLINHOS. ALÉM DA HUMANIDADE. MONTEIRO LOBATO NOS PASSAVA O CONHECIMENTO ...DOS VERDADEIROS PRINCÍPIOS E INFLUIU MUITO POSITIVAMENTE EM MINHA FORMAÇÃO.LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO, JÔ SOARES, E A MAIORIA DOS INTELECTUAIS DESTE PAÍS, RELATAM A IMPORTÂNCIA DE LOBATO EM SUAS VIDAS. NÃO ME PARECEM QUE ELES SE TORNARAM PRECONCEITUOSOS E RACISTAS, BEM AO CONTRÁRIO. SENHORES MEMBROS DO CONSELHO DE EDUCAÇÃO, AS CRIANÇAS QUE LEÊM LOBATO NÃO SÃO BURRAS....
    Ruth Souza Saleme Odila, o medo gera tantas coisas....será que ainda é mais fácil apagar a memória?Bjs
LENDAS NEGRAS PARA CRIANÇAS
http://companhiadashistorias.blogspot.com/2010/11/temporada-lendas-negras-para-criancas.html