Painel da ONU divulgou quinto relatório sobre o
clima nesta sexta-feira. IPCC considera responsabilidade humana 'extremamente provável'. Eduardo
Carvalho
O Painel Intergovernamental sobre
Mudanças Climáticas, IPCC na sigla em inglês, divulgou nesta sexta-feira (26)
um novo relatório que aumenta o grau de certeza dos cientistas em relação à
responsabilidade do homem no aquecimento global. Chamado de "Sumário para os Formuladores de Políticas", o texto
afirma que há mais de 95% (extremamente provável) de chance de que o homem
tenha causado mais de metade da elevação média de temperatura registrada entre
1951 e 2010, que está na faixa entre 0,5 a 1,3 grau - a edição anterior falava
em mais de 90%. O documento apresentado em Estocolmo, na Suécia, em conferência
científica realizada ao longo desta semana, mostra também que o nível dos
oceanos aumentou 19 centímetros entre 1901 e 2010, e que as concentrações
atmosféricas de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso aumentaram para
"níveis sem precedentes em pelo menos nos últimos 800 mil anos". O
novo relatório diz ainda que há ao menos 66% de chance de a temperatura global
aumentar pelo menos 2 ºC até 2100 em comparação aos níveis pré-industriais
(1850 a 1900), caso a queima de combustíveis fósseis continue no ritmo atual e
não sejam aplicadas quaisquer políticas climáticas já existentes. Os 259
pesquisadores-autores de várias partes do mundo, incluindo o Brasil, estimam ainda
que, no pior cenário possível de emissões, o nível do mar pode aumentar 82
centímetros, prejudicando regiões costeiras do planeta, e que o gelo do Ártico
pode retroceder até 94% durante o verão no Hemisfério Norte (veja abaixo uma
tabela com os eventos climáticos possíveis, segundo os cientistas). Trata-se da primeira parte de um
conjunto de dados que servirá de base para as negociações climáticas
internacionais. A última versão saiu em 2007, quando o estudo rendeu ao painel
de especialistas o Prêmio Nobel da Paz. O primeiro capítulo divulgado nesta
sexta, de um total de três, aborda A Base das Ciências Físicas. As demais
partes serão publicadas em 2014.

Aquecimento quase certo
Os cientistas tratam como fato o aumento médio de 0,85 ºC na temperatura global
entre 1880 e 2012 e que é “muito provável” que desde 1950 houve redução de dias
e noites mais frios e aumento de dias e noites mais quentes em todo o planeta.
A temperatura da superfície do oceano teve aumento de 0,11 ºC por década entre
1971 e 2010, e a água marinha está mais ácida, fator que pode prejudicar o
ecossistema. Um ponto considerado polêmico do documento, o chamado
"hiato" da mudança climática, foi mantido. O trecho explica que houve
uma "desaceleração" no aumento da temperatura global entre 1998 e
2012, com taxa de aquecimento de 0,05 ºC por década, enquanto que período entre
1951 e 2012, essa taxa era de 0,12 ºC. Para o IPCC, esta desaceleração sentida
não significa uma mudança de curso no aquecimento do planeta. Ao avaliar quatro
cenários de emissões de gases, o IPCC fez previsões de que até 2100 a
temperatura no planeta pode aumentar entre 0,3 ºC e 1,7 ºC (no cenário mais
brando, com menos emissões e políticas climáticas implementadas) e entre 2,6 ºC
4,8 ºC se não houver controle do lançamento de gases-estufa. O relatório aponta
também que é forte a evidência de que as camadas polares e glaciares do Ártico
e Antártica têm perdido massa de gelo e reduzido sua extensão oceânica.O texto
diz que são “altamente confiáveis” as informações de que a Groenlândia e a
Antártica perderam massa de gelo nas últimas duas décadas e que já há migração
de ecossistema terrestre para áreas onde o frio predominava (e não havia chance
de sobrevivência da maioria dos tipos de vegetais).
“O mais importante é que o gelo
fora da região antártica continua com ritmo acelerado de derretimento e,
principalmente, as geleiras não polares (encontradas em montanhas) continuam a
reduzir rapidamente e a contribuir para o aumento do nível do mar”, explicou o
glaciologista brasileiro Jefferson Simões, um dos revisores da parte que aborda
as massas de gelo do planeta. -“Agora nós temos muito mais dados e um
detalhamento maior, que possibilita que as previsões sejam corrigidas”,
complementa.
Segundo o IPCC
- temperatura global aumentou 0,85 ºC entre 1880 e 2012;
- há 95% de chance de que o homem causou
aquecimento;
- concentração de CO2 no ar é a maior em 800 mil
anos;
- no pior cenário de emissões, a temperatura sobe 4,8 ºC até 2100;
- no mesmo cenário, nível do mar pode aumentar 82
cm até 2100;
- gelo do Ártico pode retroceder 94% até 2100
durante o verão;
Maior
emissão de gases
Um dos dados apresentados pelo IPCC aponta que foi registrado um aumento de 43%
na forçante radiativa entre 1985 e 2011.
A forçante radiativa é um índice
que estima impactos climáticos causados pelo desequilíbrio entre as radiações
solares absorvidas pela Terra e o calor devolvido pelo planeta à atmosfera,
aquecendo-a. Essa troca de energia equilibrada garante uma temperatura global
estável.
No entanto, uma maior emissão de
gases e aerossóis pelo homem por conta de queimadas, desmatamento e queima de
combustíveis fósseis (principalmente CO2) tem elevado a forçante e,
consequentemente, retido uma maior quantidade de calor no planeta. Segundo
Paulo Artaxo, físico da Universidade de São Paulo e um dos coautores do
capítulo divulgado, o aumento representa a elevação das concentrações de gases
de efeito estufa “que continuam a subir rapidamente”.
Mares mais altos
De acordo com o IPCC, é muito provável que o nível do mar aumente no século 21
em todos os cenários de emissões estudados pelos cientistas. A elevação seria
causada pelo aumento do degelo na região da Antártica e do Ártico.
No cenário mais brando, em que há corte de emissões e políticas climáticas, o
nível do mar pode subir entre 26 centímetros e 55 centímetros até 2100. Já no
pior cenário, com altas emissões de gases-estufa e não cumprimento de regras
para a redução delas, o nível do mar aumentaria entre 45 centímetros e 82
centímetros.O IPCC faz a previsão também de que 95% da totalidade do oceano tem
probabilidade alta de aumentar o seu nível e que 70% das regiões costeiras do
planeta sofrerão com o avanço do mar. - “É importante salientar que algumas
regiões do globo podem ter aumento maior que este e outras regiões aumentos
menores, pois este valor é uma média global”, afirma Artaxo. Esperamos um
grande impacto deste relatório nos formuladores de políticas" José
Marengo, pesquisador do Inpe e editor do relatório do IPCC
Credibilidade
em xeque
Vazamento de e-mails com conversas entre autores, debatendo possíveis exageros
presentes no relatório, ou até mesmo erros cometidos, como a conclusão de que
as geleiras nas montanhas do Himalaia derretiam mais rápido do que as outras do
mundo e "poderiam desaparecer até 2035, ou antes” – dado que o IPCC
considerou um “lamentável erro” – levantou um debate sobre a credibilidade da
instituição. O fato alimentou a opinião de céticos em relação às mudanças
climáticas. Mas, para cientistas brasileiros envolvidos na elaboração do
documento e ouvidos pelo G1,
foram problemas pontuais que não diminuíram a “confiabilidade científica” do
painel. "Houve uma mudança na forma de trabalhar, os capítulos foram
enviados para revisão internacional. Esperamos um grande impacto deste relatório
nos formuladores de políticas", afirma José Marengo, pesquisador do Centro
de Ciência do Sistema Terrestre, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe). O
pesquisador, que é um dos editores do capítulo divulgado, duvida que a confiabilidade
científica do texto do IPCC tenha diminuído. "O fato de que há críticos
por aí não significa que está errado ou cheio de problemas", disse. “A
credibilidade não é colocada em dúvida por causa de questões menores perto de
milhares de aspectos acertados no relatório. Sempre é possível que pequenos
deslizes ocorram em qualquer tipo de trabalho, mas isso não tira o brilho de
uma extensa análise feita por milhares de cientistas”, afirmou Paulo Artaxo.