IMPOSTOS EM SÃO PAULO

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A RESPEITO DA PRESENÇA DE MINERADORAS NO MUNICÍPIO DE CALDAS-MG


 

PEDRA BRANCA-POCINHOS DO RIO VERDE
 depoimento pessoal 

nota liminar: este é um depoimento estritamente pessoal. Embora algumas idéias básicas escritas aqui venham sendo, de longa data, dialogadas com pessoas na Rosa dos Ventos e em outros locais de Caldas, este documento envolve o meu nome e as minhas opiniões pessoais e minhas propostas a respeito da presença, da atividade e da expansão de empresas mineradoras em Caldas.
Divido este depoimento em alguns argumentos e algumas propostas. Devo lembrar que sou um antropólogo e um educador. Muito embora tenha participado de atividades ambientalistas (inclusive aqui em Caldas) e tenha escrito livros sobre educação ambiental, não sou um especialista no assunto e, menos ainda, em legislação ambiental.

1º argumento: A LEI E O ALÉM DA LEI
Creio que a discussão entre os lados envolvidos na questão que nos toca aqui, tenderá a ser conduzida dentro de marcos "da lei" e, de maneira específica, dentro de marcos da "legislação ambiental". Concordo com este ponto de vista. Mas penso que, tal como em tantas outras questões, existem dilemas humanos, sociais, ambientais, planetários mesmo, ainda não inteiramente estabelecidos como legislação.
Isto vale para o Planeta Terra. Basta ver a imensa dificuldade em se aplicar mínima e universalmente o Protocolo de Kiotto, mesmo sabendo-se que nada menos do que a Vida na Terra e a Vida Humana estão ameaçadas em médio prazo, se em "nome de um pretenso  desenvolvimento econômico", as nações e as grandes empresas perseverarem no modelo de insustentabilidade vigente. Isto vale para o Brasil, onde apesar de todo o Código Florestal, segundo dados oficiais as empresas de "agro e hidro negócio" devastaram entre o Mato Grosso e o Pará cerca do equivalente a "três Estados de São Paulo" em 10 anos.
E isto vale igualmente para Minas Gerais. Estamos em um Estado onde as mineradoras devastam em nome de seu lucro e de um  PIB (ainda mínimo) do País inúmeras regiões de grande valor humano e ambiental.
E isto vale ainda para esta região do Sul de Minas onde estamos e, finalmente, para o Município de Caldas.
Uma questão básica é: "o que as empresas mineradoras estão explorando em Caldas está dentro ou fora da lei (da Constituição da República Federativa do Brasil, da Legislação ambiental do Brasil, da Legislação Ambiental do Estado de Minas Gerais, do Código de Posturas do Município de Caldas, etc.)?"
O plano estrito da jurisprudência envolve  uma dimensão essencial e, quase sempre, decisiva,  em toda esta questão. No entanto em nome do bom senso, creio que ela não deve ser a única. A dimensão político-jurídica deve deixar-se envolver por outras dimensões, por perguntas e por outros pontos cruciais de  discussão.
Por exemplo:
a) Mesmo estando "estritamente dentro da lei", a exploração de granito e outros minerais em Caldas aporta de fato benefícios para as pessoas de agora e do futuro; para as comunidades sociais de Caldas; para o seu patrimônio natural e cultural; para o meio ambiente, de tal forma  que justifique, no presente e no futuro a presença e a expansão de empresas interessadas em tal atividade?
b) Mesmo estando "estritamente dentro da lei', a exploração de granito e outros minerais em Caldas colabora para a realização de uma verdadeira "vocação de Caldas", sobretudo se lembramos que Caldas há 200 anos é reconhecida como uma região privilegiada, sobretudo no que toca a sua natureza e a qualidade de suas águas minerais?
c) Mesmo estando "estritamente dentro da lei", a exploração de granito e outros minerais em Caldas aporta efetivamente algo para o "bem comum" (uma nova e essencial dimensão que tenderá a provocar revisões profundas em todas as legislações em todas as suas esferas e fronteiras), ou será que ela responde apenas a interesses econômicos de grupos empresariais e de empresários individuais?
Creio que um debate fecundo e inteligente deveria partir da "lógica da lei", e deveria ir até além dela, para, então, retornar de forma mais densa e enriquecida a ela.

2º argumento:  QUEM SÃO ELES E QUEM SOMOS NÓS
Há uma outra questão que deve ser colocada em aberto e discutida com critérios muito ao mesmo tempo humanos e socioeconomicamente objetivos e realistas.
Podemos nos equivocar, imaginando que em toda esta discussão entre as empresas mineradores de um lado, e pessoas, comunidades, instituições da sociedade civil e poderes (executivo, legislativo e judiciário) em e de Caldas, e, do outro lado, as empresas mineradoras (organizadas ou não em algum tipo de instituição civil) estamos diante de dois lados  com valores e interesses diversos, mas ética, legal e politicamente equivalentes.
Isto é inteiramente falso.
Isto seria inteiramente verdadeiro, se estivéssemos discutindo a introdução em Caldas de uma instituição civil sem fins lucrativos, com propósitos de instaurar aqui um projeto de otimização de nossos recursos naturais voltados, por exemplo, à saúde.
Isto seria parcialmente verdadeiro se estivéssemos discutindo o interesse de uma empresa em responder pelo "Balneário de Caldas", ampliando os seus espaços e otimizando os seus serviços, com direitos à concessão de uma exploração empresarial durante 50 anos.
Mas isto é discutivelmente verdadeiro, ou é mesmo inteiramente falso no nosso caso em questão.
Penso que na verdade temos de um lado, pessoas, comunidades, instituições sociais, representantes de agências de poderes públicos voltados ao BEM COMUM de Caldas e de toda s região em que nosso município se insere.
Penso que temos, de um outro lado, empresas mineradoras interessadas apenas e inteiramente na exploração rápida e predatória de recursos naturais de Caldas, em benefício único e exclusivo de seus interesses. De seus interesses prioritariamente econômicos. Em suma: de seus ganhos; de seu lucro. Pois até que me provem o contrário, este é o único ou o essencial propósito de empresas capitalistas como as que aqui estão, ou que aqui pretendem "se instalar".
Esta é a realidade conjuntural dos "dois lados da questão das mineradoras em Caldas". Não temos "empresários pecuaristas" ou "do agronegócio" defendendo os seus interesses de um lado e, do outro, empresários de "mineradoras". Isto aconteceu em outros países e em outras eras, como nos Estados Unidos da América do Norte, quando da descoberta do petróleo no seu solo. Isto pode estar acontecendo agora mesmo em outras regiões do Brasil.
Mas não aqui, repito.
Aqui em Caldas temos, de um lado: pessoas, famílias, comunidades de pequenos produtores rurais de agricultura e pecuária (aqueles bem mais do que os do agronegócio, são os que de fato "colocam a comida nas nossas mesas"  - inclusive nas dos donos ou sócios das empresas mineradoras). Temos do mesmo lado, pessoas que vieram de outros lugares viver em Caldas; pessoas que não vivendo aqui, aqui construíram espaços de vida e de preservação da natureza; pessoas que mesmo não sendo de Caldas, não vivendo aqui e sequer possuindo propriedades urbanas ou rurais em nosso município, em nome de sua afeição por Caldas e, sobretudo, em nome de seus empenhos em defesa da qualidade de vida e da preservação do ambiente natural, colocam-se a favor de uma defesa justa e inadiável da natureza e da vida na região de Caldas. De Caldas e de todo o Sul de Minas, de toda Minas Gerais, de todo o Brasil, de todo o Planeta Terra, enfim.  Temos, do mesmo lado, creio, pessoas, instituições gremiais e partidárias, assim como instituições do poder público constituído em Caldas, com uma igual vocação de salvaguarda de diretos humanos, do bem comum e da natureza e, nela, do meio ambiente que conforma nosso território geográfico.
E este poderia bem ser o momento para nos lembramos que, desde suas origens na Grécia Antiga, "público" não quer dizer "do poder" e nem "do governo". Quer dizer: "do povo". Isto é das  e em nome das pessoas que constituem a sociedade civil à qual deve se subordinar qualquer esfera ou modalidade de poder político ou de outras esferas, em uma democracia. "Público" significa também "da polis"; ou seja, da cidade, no sentido grego e depois romano de "a comunidade civil que habita e gere em seu nome um lugar social".
Quem tenha dúvidas, por favor, abra a página 1 da Constituição da República Federativa do Brasil" e veja logo entre as primeiras linhas em nome de quem... "todo o poder será exercido".
Não é  em nome de meus interesses pessoais que estou escrevendo isto. Não é em nome de meus interesses pessoais que há anos venho defendendo, junto a tantas outras pessoas de Caldas, em Caldas e amigas de Caldas, a integridade do valor humano, da qualidade de vida e do meio ambiente em Caldas. E para além de Caldas. Creio que esta é a mesma intenção de uma imensa maioria das pessoas que aqui estão ou que para aqui vieram. Assim, defendo que individual e coletivamente somos aquelas mulheres e aqueles homens empenhados na justa "defesa do Bem Comum".
Esta é uma diferença fundamental que também precisa ser considerada "dentro da lei" e "para além da letra da lei".
Como acontece em todo este País, e em todo o Mundo, na verdade, temos de um lado pessoas, comunidades, entidades e associações civis e governamentais (da Câmara Municipal de Caldas à Organização das Nações Unidas) empenhadas em salvaguardar a vida e a natureza, condição mínima da salvaguarda da Espécie Humana na Terra e de sua solidária e sustentável prosperidade. O que é algo muito diferente de "desenvolvimento econômico", calcado no lucro, na ganância e na destruição do ambiente.
Creio que  visivelmente temos, do outro lado,  emissários do interesse do "bem individual", realizado através do lucro financeiro obtido graças à destruição geométrica de patrimônios naturais (estabelecidos claramente em lei) e do bem comum de e em Caldas.
O que pode parecer a um olhar apressado um repertório de pequenas diferenças ajustáveis e conciliáveis entre "dois lados diversos, mas não antagônicos", é, a um olhar um tanto mais crítico, a oposição entre dois pólos com visões de mundo, com compreensões de sentido do bem comum e com vocações opostas. Estamos convivendo a posição entre um lado dos que defendem o bem comum frente ao interesse individual, versus o lado dos que defendem interesses econômicos individuais ou corporativos, empresariais, frente aos valores do bem comum.
3º ARGUMENTO:  SE ELE FOSSEM AO MENOS... MENOS PREDATÓRIOS E MAIS PRESENTES

Para além das classificações de modalidades com que se apresentam perante a sociedade, a lei o "mundo dos negócios", um simples olhar atento ao que se passa em uma cidade como Caldas ou, com maior diversidade, em Poços de Caldas, revelaria que as empresas podem ser divididas em três categorias, do ponto de vista do que aqui nos interessa: a) aquelas que vão além das obrigações estritamente legais; b) aquelas que permanecem na pura e simples observância do "estritamente legal"; c) aquelas que sequer cumprem o "estritamente legal".
Entre as primeiras, estão aquelas que além de cumprirem as diversas legislações que incidem sobre seus negócios, aportam a diferentes dimensões das sociedades em que se inserem, uma parte de seus ganhos e lucros, sob a forma de compensações e retribuições oriundas dos ganhos do capital.
Esta é uma tradição quase obrigatória em nações democraticamente mais consolidadas. Sabemos que boa parte dos recursos destinados a instituições de ação social, a universidades e a outras agências de ciências, artes, cultura e educação, provém de fundações criadas por empresas. Aqui mesmo no Brasil esta tradição aos poucos e a custo se difunde.
Aqui mesmo ao lado, a ALCOA (uma empresa internacional), apregoa haver criado um espaço de preservação da natureza e de educação ambiental. ela insiste em estar continuamente apoiando iniciativas sociais e culturais. E há alguns anos atrás espalhou outdoors por toda Poços de Caldas, anunciando haver plantado um milhão de árvores. Espero que não sido Eucaliptos e Pinus.
Entre as segundas estão aquelas que, em muito maior número, "cumprem com a lei" estritamente, e apenas realizam algum benefício eventual e rasteiro, em favor do local onde se instalam, sobretudo quando esta ação é imposta pela própria legislação. Este é o caso das "áreas de compensação" estabelecidas em nossa legislação ambiental.
Entre as terceiras estão aquela que além de nada contribuírem,  ou apenas irrisoriamente aportarem algum benefício às comunidades onde se instalam, sequer cumprem de forma completa e devida os requisitos e as exigências mínimas da legislação.
Este, acredito até prova em contrário, é o exato caso das empresas de mineração em Caldas.
A quem duvide, sugiro que Chegue até na Pedra Branca e procurem pela floresta de regeneração com árvores naturais impostas pelo Código Florestal a toda a empresa, tão logo ela conclua e exploração de frações do local onde opera. Quem olhe (e fotografe) com atenção os espaços residuais das mineradoras de Caldas verá cemitérios estéreis de restolhos de pedras. As pedras que aportam milhões de reais (ou de dólares) às empresas mineradoras, todos os dias nós as assistimos serem furtivamente levadas para longe, dentro dos imensos caminhões que esburacam as nossas estradas. As pedras que não sevem, elas as abandonam, para que porções preciosas de nossos santuários naturais se transformem no amontoado de resíduos que, por milênios, depois de esgotadas as nossas riquezas e as fontes de seus ganhos despropositados, as empresas se forem embora, em busca de outros lugares a "explorar".
 
4º ARGUMENTO: Á PAULÍNIA A RIQUEZA, A CALDAS A INDIGÊNCIA
Quem esteja acompanhando uma recente polêmica de âmbito nacional haverá de ver como a nossa própria legislação econômica e empresarial trabalha com dois pesos e duas medidas.
Dou um exemplo de comparação bem próximo a nós. A menos de 150 kms. de Caldas, já no Estado de São Paulo, a pequena cidade de Paulinia, inserida em um município cujo território é menor do que o de alguns bairros rurais de Caldas, é considerada a cidade proporcionalmente mais rica do Brasil.
Neste município foi instalada uma REPLAN, uma refinaria de petróleo da Petrobrás. Em troca dos danos ambientais, esta refinaria que ocupa mais mão-de-obra local do que todas as mineradoras de Caldas multiplicadas por 10, paga anualmente "roialtes" milionários.
De igual maneira, assistimos uma polêmica aberta entre Estados litorâneos da Federação, onde existe já ou será iniciada a exploração de petróleo extraído de sub-solo marinho, e os outros Estados, como Minas Gerais, rica em minérios, pobre em petróleo.
A polêmica é aguerrida e não-resolvida até hoje, simplesmente porque o aporte financeiro a estados e municípios onde há ou haverá exploração de petróleo é realmente imenso.
E os impostos e dividendos devidos á mineração?
Qual a razão pela qual Paulínia recebe por mês mais do que Caldas em vários anos, em recursos financeiros vindos afinal de uma atividade de maior valor social (o combustível de seu carro) e de um menor impacto ambiental do que as nossas mineradoras. As mesmas empresas que nos deixam uma natureza degradada, pagando um mínimo de impostos municipais, se é que pagam algum, enquanto levam daqui para o exterior riquezas que são um bem comum nosso, e que, exportadas, transformam-se em uma riqueza individual ou empresarial apenas "deles"?
Até onde posso compreender, temos em Caldas, através da exploração de nossos recursos minerais, uma das formas mais perversamente devastadoras  do meio ambiente, somada a um mínimo de aporte compensatório, previsto ou não em lei.
Em nome do quê? De quem? De que direitos humanos, ambientais e sociais? Em proveito de quem?
Podemos perguntar: desde a implantação de empresas de mineração aqui, em que grau as nossas precárias estradas rurais melhoram nos últimos anos? Devo lembrar que agora mesmo, uma comunidade de moradores e proprietários ao longo da estrada entre a da Pedra Branca e a do bom Retiro está se cotizando para, por conta própria, calçar um trecho de estrada cujo trânsito é inviável em tempos de chuva.
Que escola as empresas mineradoras, juntas, construíram para Caldas com uma pequena "sobra" do que ganham aqui? Que praça de esportes para jovens? Que espaço público de preservação ambiental junto à Pedra Branca? Que leito de hospital? Que efetivo aporte a um mínimo de melhora das condições de vida em Caldas. Sobretudo nas áreas próximas ao seus locais de degradante exploração que efetivos benefícios compensatórios foram  realizados de fato até hoje?
Antecipo que é muito provável que em próxima reunião para reivindicarem os seus "direitos a explorarem novas lavras", as mineradoras anunciem para, "daqui em diante", alguns aportes e compensações "em troca" do que levam sem deixar aqui nada além de áreas degradadas e restos de pedras inúteis.
Nunca aportaram de fato nada significativo. Duvido que venham a cumprir promessas no futuro.

5º. ARGUMENTO: O LUGAR ONDE ESTAMOS NÓS, AQUI EM CALDAS
Seguidas vezes viajo de avião. Com freqüência vôo saindo de Campinas em direção a Belo Horizonte ou a alguma cidade de Nordeste. Algumas rotas passam exatamente por cima de nossa região. Ora elas sobrevoam terras entre Caldas e Santa Rita de Caldas, ora passam mais em direção a Poços de Caldas. Faz alguns meses, uma nova rota passa exatamente por cima da Rosa do Ventos, cortando boa parte do Município de Caldas.
Quem preste atenção verá lá do alto uma paisagem completamente diversa de quase todas as outras em solo brasileiro.
É que estamos em uma das três únicas grandes crateras vulcânicas no Brasil!
As duas outras estão, uma em Araxá e, a outra, em Caldas Novas. As duas cidades trocaram a mineração predatória pelo turismo ecológico. E em Caldas Novas um único grande hotel de turistas  emprega mais mão-de-obra e aporta mais recursos para o município do que provavelmente o farão todas as mineradoras de Caldas juntas.
Quem consulte um mapa geológico (no Google tem) verá que estamos dentro de uma rara e preciosa porção de território denominada: "Vulcão de Poços de Caldas". Apenas por isto e pela extrema raridade de tal ocorrência no Brasil, defendo que atividade predatória alguma deveria ser autorizada a se instalar em todo o território deste "vulcão", que além de Caldas e de Poços de Caldas, envolve outros municípios da região.
Com um pouco mais de atenção, será possível ver um belo e inesperado acidente geológico que datará de muitos milhões de anos. Ao invés de assumir a forma redonda de uma cratera (ou uma "caieira") vulcânica, caprichosamente o nosso "Vulcão de Poços de Caldas", justo no território que vai de Pocinhos do Rio Verde até a Pedra Branca, forma um alongamento. O círculo se alonga em um quase cone de terras e serras (a Serra de Caldas é uma de suas bordas, junto com a Pedra Branca) e configura ali a porção mais bela e preciosa de toda a geologia, a geografia e a geopoética do "Vulcão de Poços de Caldas". Acrescentemos a isto, que ao lado desta região nascem os nossos dois rios: o Verde e o Soberbo.
Faz tempo tenho comentado que não apenas a "Região da Pedra Branca", mas toda a área imensa do "Vulcão de Poços de Caldas" deveriam ser oficialmente declaradas: "Patrimônio Natural do Brasil", como um território de estrito e raro perfil geológico, ecológico e ambiental. Portanto, toda esta deveria ser uma região regida pela mais rigorosa legislação de defesa da natureza e de extrema preservação ambiental.
Acrescentemos a isto, ainda,  a presença aqui de raras águas minerais que deveriam estar sendo bastante mais propaladas e utilizadas, como um eficaz recurso de saúde, do que estão sendo no presente momento.
Acrescentemos finalmente que Caldas é, em todo o Sul de Minas, em toda Minas Gerais e em todo o Brasil, um município de uma rara região de um inestimável valor humano, paisagístico e natural. Caldas deveria possuir uma "vocação de santuário natural", tal como raros outros territórios no Brasil e na América Latina.

6º ARGUMENTO:  AS VOCAÇÕES DE CALDAS SÃO OUTRAS
Vocês já visitaram outras regiões e municípios de Minas Gerais onde aos poucos empresas de mineração se instalaram e, depois, literalmente "tomaram conta"? Já foram ao menos até ali, em São Tomé das Letras? Ou, mais próximo ainda, já foram ver como ficaram as áreas de Caldas e de Santa Rita de Caldas, onde empresas mineradoras extraem o granito?
Quem tenha ido e tenha alguma sensibilidade, haverá de perguntar como eu e tantas outras pessoas: em nome de quem  e em proveito do que tudo isto está acontecendo aqui?
Se Caldas fosse um município situado em um território sem outros recursos que não os de seus minerais. Um lugar  sem outras alternativas a não ser a mineração, ainda aí a presença de empresas mineradoras deveria ser submetida a um criterioso exame.
Mesmo que Caldas estivesse situada em uma caatinga seca e árida, ainda aí seria preciso realizarmos a mesma pergunta: vale a pena tanta degradação ambiental em nome de tão pouco?
Mas Caldas e toda a vasta região do "Vulcão de Poços de Caldas", é o exato oposto de "uma caatinga seca e árida". Caldas é - e sempre será preciso repetir - um raro e precioso "Santuário natural".
E, então, mais aqui do quem em tantos e tantos municípios do Brasil, devemos fazer a pergunta (a ser feita em nome da lei, dentro dela, e para além da lei): vale a pena tanta degradação ambiental em nome de tão pouco?
Caldas tem vocações! E as suas vocações foram e podem seguir sendo outras.
Caldas foi por vários anos o município com a maior produção de uva e vinho no Brasil.
Caldas pode voltar a ser uma fecunda região de agricultura e pecuária realizada por uma hoje retomada e re-incentivada agricultura familiar, desde o governo federal.
A EPAMIG, aqui situada, está realizando com sucesso experiências com a produção de Oliveiras. Caldas pode, no correr dos anos, vir a ser a terra de olivais e de um azeite de qualidade. Maria da Fé já está produzindo e comercializando azeite de qualidade.
Caldas tende a ser tornar uma cidade e um município conhecido naturalmente pela qualidade de seus queijos e seus doces. Parece pouco. Pode ser muito.
Pelo lado de Andradas, com muito menor impacto ambiental, Caldas  começa a ser povoada por grandes canteiros cobertos de produção de flores.
Em tempos em que fala tanto em saúde e em cuidados naturais com a saúde, Caldas poderia assumir-se (mais até do que Poços de Caldas e Campos do Jordão), como uma "estância hidromineral de saúde".
Lembro que em nome de sua identidade como "estância hidromineral Águas da Prata oficialmente baniu de seu território as tentativas de empresas mineradoras ali se instalarem.
Caldas poderia ampliar muito uma vocação destinada ao "turismo ecológico". Estamos perdendo o terreno neste campo para cidades próximas como Andradas, e para cidades até pouco tempo desconhecidas, como Gonçalves e Paraisópolis.
Um programa inteligente poderia associar saúde-ecologia-cultura-culinária típica e, sobretudo, a rara beleza natural do município,  como um conjunto de motivos e de recursos para a consolidação de uma real, fecunda e sustentável vocação do Município de Caldas.
Podemos nos unir para consolidar a APA DA PEDRA BRANCA. Podemos ir além. Podemos nos unir para, junto a instancias de outros municípios da região, de Minas Gerais e do Brasil, implantarmos finalmente aqui a APA DO VULCÃO DE POÇOS DE CALDAS. Lembro que a APA DA SERRA DA MANTIQUEIRA envolve 27 municípios de e Estados da Federação.
Não nos iludamos. Tal como irreversivelmente já aconteceu em outros lugares do mundo e do Brasil - a começar por Minas Gerais - empresas capitalistas de interesses centrados no "lucro individual', por oposição ao "bem comum", chegam de início aos poucos, silenciosa e mansamente (apesar do estrondo de seus dinamites). Depois se associam,  e para a sociedade e os poderes públicos que iludem, prometem "um absoluto e estrito respeito á lei"; um "desenvolvimento local'; "um pleno emprego de mão de obra e uma série de benefícios adicionais proporcionais aos seus ganhos.
Visitem os locais onde algumas delas estão instaladas. Relembrem como ele era e vejam como ele ficou. Perguntem aos vizinhos das pedreiras em que a sua qualidade de vida melhorou depois da chegada delas. Consultem dados confiáveis na Prefeitura de Caldas e tomem conhecimento do real aporte das mineradoras ao município e à sociedade que, afinal, somos todas e todos nós.
Depois, façam aos seus donos e sócios a mesma pergunta que fiz aqui mais de uma vez:
Vale a pena um tal dano à natureza e à vida de todas e todos nós, em troca de tão pouco?
Eis os meus argumentos e o meu rascunho de lembranças e de propostas.
Repito que escrevo como um não-especialista, sobretudo em legislação ambiental. Escrevo o que vivo, penso e sinto, como uma pessoa que escolheu Caldas como um lugar de vida. Uma pessoa que descobriu aqui  as belezas e os recursos de uma natureza quase única, ao lado da hospitalidade de seu povo.
Uma natureza que não deve ser "intocada", porque Caldas não está num Parque Nacional, tal como boa parte de Itatiaia ou de Itamonte. Mas uma natureza que seria mais do que apenas um "crime ambiental" tratar de forma tão brutal e irresponsavelmente predatória, como diante de nosso olhos está sendo crescentemente levado a efeito pelas empresas mineradoras que aqui se implantaram.
Dada a minha idade e às minhas atuais condições de saúde, não poderei estar participando com a presença e a intensidade desejadas de todo o processo de debates, confrontos e diálogos ao redor da questão da presença da mineradoras em Caldas e no Vulcão de Poços de Caldas.
Vindo do Rio de Janeiro onde nasci, e de Campinas onde moro, convivo com a gente e o mundo de Caldas desde o começo dos anos 80. Construí aqui, não para o meu uso pessoal, o de minha família e o de meus amigos próximos, um lugar onde porteiras e portas nunca estão trancadas. Um lugar solidário onde quem seja que venha pode chegar, entrar e conviver conosco a vida de partilhas que aqui se tenta viver.
Desde sempre, desde os tempos já distantes do Águas Claras - associação ambientalista das bacias do Rio Verde e do Rio Soberbo, estive sempre envolvido em nossas frentes de luta em nome da natureza e, sobretudo, dos valores humanos e da qualidade de vida das pessoas daqui. Estivemos por anos enfrentando a INB e as mineradoras. Ganhamos batalhas. Ganharemos mais esta!
Sigo apoiando com entusiasmo todas as iniciativas em favor dos valores e direitos que sempre defendi. Mesmo sem a energia física e o "poder de presença" de outros tempos, quero me sentir presente, ainda e sempre.
Em minha vida de professor e de militante de direitos humanos e naturais, tenho sido alvo de algumas homenagens e de alguns reconhecimentos. Dentre todas e todos, ao lado de ser um professor há 46 anos, há um reconhecimento que estimo acima de todos os outros: haver sido escolhido dentro os que um dia vieram para aqui, para ser um Cidadão Caldense.
E que a conhecida dupla frase de um velho índio nos ajude a encerrar este depoimento.
Nós não herdamos a Terra de nossos antepassados.
Nós apenas a pedimos emprestada aos nossos filhos.


ESTIVEMOS JUNTAS E JUNTOS ATÉ AGORA!

ESTEJAMOS JUNTOS E JUNTAS AGORA!

quinta-feira, 30 de maio de 2013

ESCLARECIMENTO A SOCIEDADE - SERRA DO ESPINHAÇO - MG


Nota de Esclarecimento à Imprensa e à Sociedade
Atingidos pelo Projeto Minas-Rio
em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas
(27-maio-2013)
O conflito envolvendo a mineradora Anglo American, o governo estadual de Minas Gerais e atingidos pelo Projeto Minas-Rio começou com um acordo palaciano, sem a devida consideração sobre os impactos ao povo, ao meio ambiente e às tradições culturais da região de Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas, no Médio Espinhaço de Minas Gerais.
O deputado Alberto Pinto Coelho, presidente da Assembléia Legislativa de Minas Gerais, o governador Aécio Neves e o chairman e presidente da MMX, Éike Batista, no lançamento recente do Projeto Minas-Rio, no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte”Foto publicada no jornal Mato Dentro por dentro – Ago/2007
As consequências deste desleixo e das maquinações especulativas de Eike Batista (primeiro titular da concessão minerária) e seus consortes políticos em Minas são bem conhecidas da imprensa, do Ministério Público, das delegacias e batalhões de polícia locais, da Bolsa de Valores e das vítimas mais prejudicadas da região.
O site Notícias da Mineração publicou em 16/05/2013 que o governador de Minas Gerais Antônio Augusto Anastasia declarou que os “problemas de atrasos de licenciamento enfrentados” pela mineradora Anglo American “estão resolvidos”. A afirmação ocorreu em Nova York, durante evento para investidores e líderes empresariais promovido pelas agências Bloomberg e McKinsey & Company, e Anastasia teria encontro em Londres, na última semana, com Mark Cutifani, dirigente global (CEO) da Anglo American [informação não divulgada pelo governo].
Os Atingidos pela Anglo American em Alvorada de Minas, Conceição do Mato Dentro e região esclarecem que, ao fazer tal declaração, o governador mostra desconhecimento sobre as denúncias recentes, publicadas em jornais, compartilhadas em reuniões de conselhos ambientais do Estado, audiências públicas dos Ministérios Públicos Estadual e Federal (MPE e MPF), bem como aquelas trazidas pelas comunidades atingidas pelo Projeto Minas-Rio na Audiência Pública realizada na17ª Reunião Extraordinária da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), no último dia 6 de maio de 2013. Nesta audiência, foram apresentados fatos graves, de violações de direitos humanos e ambientais, bem como do não cumprimento de condicionantes do licenciamento estadual pela mineradora(confira aqui as Notas Taquigráficas, e os registros audiovisuais de alguns depoimentos no youtube[1]).
As declarações do governador Anastasia também sugerem que ele ignora que a direção da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de seu governo, bem como a Superintendência Regional de Meio Ambiente do Jequitinhonha (Supram Jequitinhonha/Sisema) vem protelando a discussão de um diagnóstico independente concluído em 2011, determinado pela própria Unidade Regional Colegiada do Conselho Estadual de Política Ambiental no Jequitinhonha (URC Copam Jequitinhonha). O diagnóstico demonstra que os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) que fundamentaram o licenciamento do Projeto Minas-Rio subestimaram o alcance dos respectivos impactos socioambientais na região de Alvorada de Minas e Conceição do Mato Dentro, assim reduzindo radicalmente o universo dos atingidos pelo empreendimento. A insistência do Estado em mais uma vez protelar a análise deste trabalho pelo colegiado que determinou sua realização mereceu uma Moção de Repúdio da URC Copam Jequitinhonha e motivou a Recomendação 01/2013 do Ministério Público Estadual, para que o governo paute o assunto na URC e não concorra mais para o prejuízo da população afetada pela Anglo American.
Em 1º de abril (sic), dirigentes da Anglo American informaram à imprensa que de 90 a 93% das licenças ambientais do Projeto Minas-Rio estavam solucionadas – notícias publicadas nos sites da revista Exame e dos jornais O Globo e Estado de Minas, entre outros. Os dirigentes da Unidade Minério de Ferro Brasil, da Anglo American, também informaram que “os pedidos das licenças de operação serão feitos em outubro [de 2013] para que não haja mais impactos sobre o cronograma”. Partem contudo de uma avaliação dos resultados totalmente diversa da realidade. Quer dizer, ou os dirigentes maiores do Governo de Minas e da Anglo American não estão agindo com honestidade ou não estão informados por suas equipes sobre o que realmente se passa em relação ao Minas-Rio.
Fazemos nesta oportunidade o favor de repassar-lhes a seguinte avaliação, feita no último dia 18 de abril, pela Superintendente de Meio Ambiente da Regional Jequitinhonha do Sisema (Sistema Estadual de Meio Ambiente), em reunião da Rede de Acompanhamento Socioambiental (Reasa) organizada pela Coordenadoria de Mobilização e Inclusão Social do Ministério Público Estadual (Cimos/MPE). Admitiu a senhora Eliana Machado, aos atingidos pelo Projeto Minas-Rio presentes à reunião, a existência de um total de 341 condicionantes do empreendimento (desde a Licença Prévia/LP até a Licença de Instalação-Fase 2/LI-2) – e que, destas 341 condicionantes,
“162 estão assim, … ou em análise ou dependendo de análise. Se o secretário do Meio Ambiente, Dr. Adriano, chegar hoje e me perguntar: ‘- Eliana, quais são as condicionantes que estão cumpridas e quais estão descumpridas’ - eu não tenho esta resposta.”
Mais do que isso, a superintendente da Supram Jequitinhonha reconhece que, atualmente, os atingidos “estão muitos mais atualizados com relação ao empreendimento [do] que a própria Supram”. Isso, por ser também obrigada a constatar que a Supram já “não tem memória”, isto é, não conta mais com“praticamente nenhuma das pessoas que participaram da análise deste processo” (nas fases de análise do EIA/RIMA , para a LP e LI, fases 1 e 2).
Por sua vez, a Anglo American não desconhece os problemas externados nas reuniões da URC Jequitinhonha, desde 2008, como nos vários encontros e audiências públicas mensais de que tem participado, desde abril de 2012, nos municípios de Alvorada de Minas e Conceição do Mato Dentro – cujas atas estão disponíveis no sitehttp://blogs.mp.mg.gov.br/cimos/reasa/. Além disso, a mineradora tem conhecimento de que, além de alguns acordos e Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) já celebrados com o Ministério Público, vários inquéritos civis continuam tramitando no MPE, por ilegalidades e denúncias de crimes ambientais e sociais cometidos pela empresa.
Os problemas do Projeto Minas-Rio têm origem em erros de avaliação da própria empresa, mas também são causados pela precipitação e miopia da administração estadual – possivelmente instigada por interesses eleitorais –, quanto à extensão e insuportabilidade dos impactos sociais e ambientais da mineração no estado.
Fazendo coro a esta constatação, nos últimos dias, uma articulação governista emergiu para enfrentar a crescente indignação social com relação ao modus operandigovernamental e empresarial associados ao Projeto Minas-Rio. O vice-governador de Minas Gerais Alberto Pinto Coelho (pré-candidato ao governo do Estado na eleição de 2014) e o desembargador Herbert Carneiro, presidente da Associação Mineira dos Magistrados, uniram forças, com o “de acordo” do prefeito de Conceição do Mato Dentro, para a criação de um Conselho de Desenvolvimento Econômico daquela cidade, composto essencialmente pela tradicional oligarquia municipal.
Ora, nestes últimos cinco anos, os autoproclamados beneméritos conceicionenses nunca se apresentaram para defender aqueles seus conterrâneos atingidos pelas arbitrariedades de uma empresa e as deliberadas vistas grossas da administração pública estadual, não raramente abençoadas pela segunda instância da Justiça Estadual. Com este ensaio ou pacto de “elites” em torno de um “desenvolvimento” apelidado de “sustentável”, têm suas excelências a dignidade de finalmente assumir que representantes do Poder Judiciário formam com o Executivo do Estado e meia dúzia de representantes de cartórios, mineradoras e empresas fornecedoras de equipamentos pesados para a mineração um só corpo e pensamento, para legitimarem o rolo compressor da Anglo American, e, brevemente, da Vale S.A. e da estreante mineradora Manabi sobre o povo mais simples e a região que dizem “defender”.
Em outubro de 2012, pouco antes de renunciar à direção da Anglo American, a geóloga norte-americana Cynthia Carroll afirmava que o “baixo custo da logística” era fator essencial para a competividade do Projeto Minas-Rio. Em abril de 2013, o diretor de Minério de Ferro da Anglo American no Brasil, Paulo Castellari Porchia afirmou que “a garantia de sucesso do empreendimento (…) está no baixo custo de produção de um minério de qualidade” – e que este é “um projeto muito bem posicionado na curva de custos” (matérias de Marta Vieira e Zulmira Furbino, no jornal Estado de Minas: 26/10/2012 e 02/04/2013).
Percebe-se que mesmo com todos os problemas e atrasos, os mais altos dirigentes da mineradora estimam um alto retorno com o Minas-Rio. Se, ao invés de ficar buscando subterfúgios e interpretações legais diversos dos princípios que regem o ordenamento jurídico vigente, se não insistisse em justificar e enrolar por tanto tempo as graves omissões do EIA e estudos complementares, se reconhecesse e demonstrasse estar tomando as providências objetivas para solucionar os impactos e danos ambientais que está causando, e se a Anglo American, fundamentalmente, e seus amigos no Estado agissem com menos truculência e mais zelo pelo bem comum, se teria evitado boa parte dos problemas atuais que estão enfrentando – por total desconhecimento e desrespeito aos movimentos sociais e suas lideranças, e pela absoluta intransigência pela perpetuação de um modelo de mineração que está com os dias contados, e que só se sustenta pelo uso da violência, da improbidade administrativa e da afronta às leis e à Constituição.
Os problemas decorrentes da ignorância dos tomadores de decisão corporativos e governamentais recrudescerão enquanto os mesmos ignorarem a crise de legitimidade institucional e política por que passa o Brasil, que a sociedade está à frente deles e o presente caso não será resolvido, sem revisão de posturas e com base em acordos de coronéis.
Bacia do Rio Santo Antônio, Serra do Espinhaço Meridional, Minas Gerais/BR,
27 de maio de 2013.
 
Atingidos pelo Projeto Minas-Rio/Anglo American e também
atingidos pelo Governo do Estado de Minas Gerais
  • Sobre as Montanhas do Espinhaço veja menção por Léa Corrêa Pinto:
http://www.slideshare.net/InfoAndina/mountains-under-review-human-alteration-of-landscapes-iterei-the-mountain-comes-to-rio20
  • Sobre Léa Corrêa Pinto na Rio +20
http://plataforma-montanhas.rio20.net/2012/06/24/rio20-lancamento-ebook-capitulo-iterei-memoria-launching-de-lea-correa-pinto-pavilhao-das-montanhs-mountain-pavilion/
FONTE:
NOTA DE ESCLARECIMENTO | SERRA DO ESPINHAÇO : Atingidos pelo Projeto Minas-Rio em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas

quarta-feira, 22 de maio de 2013

METAMORFOSES

Esta semana nossa amiga Ionara Urrutia Moura passa por duas grandes perdas físicas. Sua mãe e seu companheiro de vida. O Mirinho, como sempre o conheci e de nome Waldomiro. Rubem Alves trouxe muita contribuição em pensamentos para estes momentos que todos temos que atravessar e nos trazem grandes mudanças de alma. A Ionara sempre estimulou e incentivou o estudo da biologia com paixão. Validou este BLOG desde sua criação. Como ela mesma diz,é "madrinha" deste espaço. Fica aqui nosso carinho a toda família. Penso nos Ipês Amarelos que tanto encantam e poetizam a vida de Rubem Alves e do Carlos Rodrigues Brandão.Penso que vou plantar em algum lugar um Ipê Amarelo.
Starling Bird

terça-feira, 7 de maio de 2013

CARTA DE CARLOS RODRIGUES BRANDÃO - DE CORAÇÃO COSTURADO!!!!

Carlos Brandão
Gente amiga e querida,
Como as notícias do que anda acontecendo com o meu coração (o biológico) se espalharam por todo o canto mais do que eu esperava, volto a dar notícia a vocês Estou ainda às voltas com médicos. Venho de um cateterismo. Escapei de uma nova cirurgia, mas terei que fazer uma angioplastia em uma artéria. Ela deve ser na próxima terça, dia 14 de maio. Até lá o médico exigiu um repouso que irei respeitar apenas em parte.  Cancelei a viagem para a Paraíba e para Brasília. Mas espero já estar inteiro o bastante para ir ao encontro de MACONDO, na Itália, entre 22 e 29 de maio.
Devo sair vivo e assim espero. O pessoal da Rosa dos Ventos costuma brincar comigo, há anos, dizendo: "cada vez que o Brandão não morre ele constrói uma casa aqui". Já são 10 casas, e depois da "Casa das Candeias" eu prometi que não ergueria mais casa alguma por lá. E o Mutirão de Julho permanece de pé! Ainda quero plantar muitas árvores pelo Sul de Minas e pelo mundo. Ainda quero escrever textos para livros como os que tenho partilhado com tanta gente querida, entre  ESALQ, a UFU e a UNIMONTES.
Ainda quero compartir um tanto mais da minha vida com gente como vocês.
 Como a gente repete sempre lá nos "sertões do Norte de Minas":
Estejamos junt@s! Um abraço amigo... cheio de coração, Carlos

quinta-feira, 2 de maio de 2013

CARTA E MENSAGEM DE CARLOS BRANDÃO - MAIO 2013



Carlos e Odila com Rubem Alves
 Gente amiga e querida
Em tempos em que depois da "violência ao meu lado" o que nos dá mais medo é o CÂNCER (mas no meu caso o coração), mando pra vocês este e-mail que foi enviado pelo Marcos Arruda. Está em Francês, mas fácil de compreender. Em outra ocasião mandarei a tradução, se Alessandra Leal não fizer isto antes. Vejam que isto não vem de nenhum "médico alternativo" etc. Vem de um dos grandes hospitais americanos de medicina alopática. São sugestões muito simples e eu acho que a maior parte de vocês já as adotou. A Jussânia, pra quem estou mandando este e-mail, tem um DVD de um hospital no México que tem realizado curas extraordinárias desta doença. Parece que ele é muito pouco divulgado por causa de "indústria do câncer", que ganha bilhões por ano e não quer perder os seu privilégios.

Aproveito a mensagem para dizer a vocês que estou muito bem. Estou em repouso preventivo e devo fazer o meu exame de cateterismo no dia 7 de maio. Espero sair desta inteiro e bem. Ms sabendo que de agora pra sempre não vai dar mais pra Subir a pé a Pedra Branca. E nem mesmo  trilha até o Morro das Estrelas.
No entanto, me anima uma frase uma vez escrita por León Bloy:
Se podemos ver a Via Láctea, é porque de algum modo já a temos dentro de nós.
Estejamos em Paz, e junt@s! Carlos

MENSAGEM DE MARCO ARRUDA PARA NÓS.
 http://www.fazendomedia.com/novas/politica240206.htm   
A LIRE ABSOLUMENT
 Un des hôpitaux les plus reconnus au monde change sa vision au sujet du cancer !!!
Ça vaut la peine d’être lu et relu.
Un des hôpitaux les plus reconnus au monde change sa vision au sujet du cancer. L'hôpital John’s Hopkins Hospital est un hôpital universitaire situé à Baltimore dans l’État du Maryland aux États-Unis.
Fondé grâce à un don de John’s Hopkins, il est aujourd’hui un des hôpitaux les plus reconnus au monde et est classé pour la 17e année consécutive en première placedu classement des meilleurs hôpitaux des États-Unis.  Après de nombreuses années à dire aux gens que la chimiothérapie est l’unique manière de traiter et éliminer le cancer, l’hôpital John Hopkins commence à dire aux gensqu’ily a d’autres alternative que la chimio:La lutte efficace contre le cancer consiste à ne pas donner à manger aux cellules cancéreuses les aliments dont elles ont besoin pour se multiplier.
LES CELLULES DU CANCER S’ALIMENTENT DE
:
a. SUCRE est un aliment du cancer. Ne pas consommer de sucre. Plus on mange de sucre et plus notre risque de cancer est élevé. C’est un des éléments les plus importants des cellules cancéreuses. Il existe des substituts du sucre comme la saccharine, mais ils sont faits avec de l’aspartame et sont très nocifs… Un meilleur substitut du sucre est le miel de manuka ou la mélasse mais en petites quantités. 
 b. sel : il contient un additif chimique afin de paraître blanc. Une meilleure alternative pour le sel est le sel de mer ou les sels végétaux.
c. Lait : ilcause dans le corps la production de mucus, spécialement dans le conduit intestinal. Les cellules cancéreuses s’alimentent de mucus. En éliminant le lait et en lui substituant du lait de soja, les cellules du cancer n’ont rien à manger, par conséquent elles meurent.
d. Les cellules cancéreuses murissent dans un milieu ambiant acide. Un régime à base de viande rouge est acide, il vaut donc mieux manger du poisson et un peu de poulet à la place de la viande de bœuf ou de porc. De plus, la viande contient des antibiotiques, hormones et parasites qui sont très nocifs, spécialement pour les personnes cancéreuses. La protéine de la viande est très difficile à digérer et requiert beaucoup d’enzymes. La viande qui ne se digère pas reste dans le corps et se putréfie ce qui entraine la création de plus de toxines.
 COMMENT CONTRIBUER A LA SOLUTION DU PROBLÈME
a) Un régime de 80% de végétaux frais et jus, céréales, graines, noix, amandes et seulement un peu de fruits mettent le corps dans un milieu ambiant alcalin. On devrait consommer seulement 20% de nourriture cuite, incluant les haricots. Les jus de légumes frais approvisionnent le corps en co-enzymes qui sont faciles à absorber et arrivent aux cellules 15 minutes après avoir été consommés pour nourrir et aider à former des cellules saines. Pour obtenir des enzymes vivantes qui aident à construire des cellules saines, on doit essayer de boire des jus de légumes (pratiquement tous incluant l’alfafa) et manger beaucoup de légumes frais 2 à 3x/jour.
 b) Éviter de prendre du CAFÉ, THÉ ET CHOCOLAT, qui contiennent beaucoup de caféine. Le THÉ VERT est une meilleure alternative et a des propriétés qui combattent le 
cancer.Il est préférable de boire L’EAU purifiée ou filtrée pour éviter les toxines et métaux lourds de l’eau du robinet. L’eau distillée est acide, ne surtout pas la boire !
 c) Les parois des cellules cancéreuses sont couvertes par une protéine très dure. En évitant de manger de la viande, ces parois libèrent plus d’enzymes qui attaquent les protéines des cellules cancéreuses et permet au systèmes immunitaire de détruire les cellules cancéreuses.
d) Quelques suppléments aident à reconstruire le système immunitaire: Floressence, Essiac, anti-oxydants, vitamines, minéraux, EPA – huile de poisson) pour aider les cellules à lutter et détruire les cellules cancéreuses. D’autres suppléments comme la vit. E sont très connues parce ce qu’elles causent l’apoptose, la méthode normale du corps pour éliminer les cellules inutiles ou défectueuses.
e) Le cancer est aussi une maladie du mental, le corps et l’esprit. Une attitude plus active et positive aidera le malade du cancer à combattre et à se convertir en survivant. « La rage et l’incompréhension, le non-pardon mettent le corps dans une situation de stress et dans un milieu ambiant acide ». Apprendre à avoir un esprit aimable et amoureux avec une attitude positive est très bénéfique pour la santé. Apprendre à se relaxer et jouir de la vie.
f) Les cellules du cancer ne peuvent pas vivre dans une ambiance oxygénée. L’exercice journalier, la respiration profonde aide à recevoir plus d’oxygène jusqu’aux niveaux cellulaires. La thérapie d’oxygène est un autre élément qui aide à détruire les cellules du cancer.
1. Pas de contenants en plastique ni de film plastiques  dans le micro-ondes.
2. Pas de bouteille d’eau dans le congélateur ni dans le  réfrigérateur !Ne pas mettre au réfrigérateur ses  bouteilles d’eau en plastique car le plastique «transpire » les dioxines et empoisonne l’eau.
g) Les substances chimiques commeles dioxines causent le cancer, spécialement du sein. La dioxine est très destructrice, et tout spécialement pour les cellules du corps.
Récemment, le Docteur Edward Fujimoto, directeur du programme Bien- Être à l’hôpital Castle, expliquait dans une émission télévisée le danger de la dioxine. Il a dit que nous ne devons pas mettre les contenants en plastique au micro-ondes. Spécialement les nourritures qui contiennent du gras. Il dit que la combinaison de gras et la forte chaleur avec le plastique transporte la dioxine à l’intérieur de la nourriture et par conséquent ensuite à notre corps. A la place, on peut utiliser du verre comme du pyrex ou de la céramique pour chauffer la nourriture.
 S’il vous plaît, distribuez cet article à ceux qui vous sont chers.
 
 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Prezados colegas de jornada,ex-trabalhadores SHELL/Cyanamid/BASF


PROF.HELENO CORRÊA
Compartilho o orgulho dos ex-trabalhadores SHELL/Cyanamid/BASF e seu Sindicato dos Quimicos Unificados pela vitória em responsabilizar as companhias por crimes de expor deliberamente os trabalhadores aos agrotóxicos e produtos de incineração.
Como um dos eventuais assessores do grupo me orgulho de ter acompanhado a luta histórica pela justiça no trabalho.Um dos assessores deles faz hoje cinquenta anos (Sabino).
A altivez e alegria dos trabalhadores dessa assembléia da vitória, muitos deles entrando pelos sessenta anos, reflete a luta iniciada em 1997 por moradores das chácaras da beira do Rio Atibaia na região onde a fábrica se implantou como um tumor gerador de doenças. Cinquenta e oito trabalhadores do grupo inicial já morreram, muitos deles por tumores linfáticos, de tireóide, e hematopoiéticos. Os organoclorados, as dioxinas e furanos dos incineradores, os metais pesados e o asbesto cobraram seu preço. Na própria semana em que foi exarado o "acordo" no Tribunal Superior do Trabalho em Brasília morreu mais um, com 48 anos com causa básica determinada como Policitemia Vera. Não era fumante, nunca bebeu, e não pode ser acusado pela epidemiologia da reação de ser apenas mais um trabalhador alcoolatra colocando culpa nos produtos químicos do trabalho.
As empresas recuaram de exigir cancelamento das sentenças de primeira e de segunda instância por que sabiam que a terceira instância do TST as confirmaria. Isso abriria um precedente mundial de reconhecimento de que discutir nexo caso a caso antes de reparar danos é coisa de pensamento anticientífico a serviço do capital poluidor. O reconhecimento de que a descrição epidemiológica do coletivo é mais forte que as relações individuais seria definitivamente lavrado em sentença. Foi isso que as empresas evitaram aceitando um "acordo". Entregaram os anéis a baixo custo para não perder os dedos.
Para os trabalhadores é dinheiro modesto e plano de saúde em boa hora. Vai aliviar suas carências e medos da velhice insegura pelo desemprego a que foram lançados quando ninguém mais os contratava por que os empregadores e serviços médicos de empresa sabiam que tinham sido expostos. As listas de exclusão clandestinas circulavam seus nomes entre os empregadores de químicos de toda a região. Não conseguiram mais trabalhar no que tinham capacitação.
Para o SUS é um alerta. Ou põe a Saúde do Trabalhador aliada à Vigilância Epidemiológica em Saúde ou vai lidar com o dumping industrial e de serviços sem financiamento. A Saude do Trabalhador é e ainda será uma colcha de retalhos que ninguém desejará unir os pedaços enquanto os trabalhadores não chegarem ao poder compartilhado nas decisões das políticas de vigilâncias locais e regionais. Foi exatamente isso que fizeram na marra os ex-trabalhadores Shell, quer a burocracia do SUS reconhecesse ou não.
O CEREST Campinas e o Ministério Público do Trabalho da 15a Região abriram o caminho com atuação pública respeitável, responsável e competente. São exemplos para a ação pública dos serviços de Saúde do Trabalhador e da administração da Justiça. A Justiça do Trabalho teve também momento s de engrandecimento em Paulínia, com a Dra. Inez Targa, em Campinas com os Juízes do Tribunal Regional do Trabalho e também em Brasília no TST. É raro, talvez único, um desempenho que faz justiça de fato aos direitos dos trabalhadores.
A poluição pelo lucro continuará enquanto não houver PRECAUÇÃO e enquanto a prática da pesquisa for dominada pelo negacionismo da Epidemiologia da REAÇÃO.
Abraços, Heleno
16Abril2013.
Ler matéria : http://www.quimicosunificados.com.br/

segunda-feira, 8 de abril de 2013

"A EXPERIÊNCIA COMO PRÁTICA DA LIBERDADE" como já dizia Paulo Freire


Vitor Hugo –
 Atleta da Escolinha Paralímpica CEPE
Como conclusão de um curso de Roteiro para Cinema - em 2011- que fiz para Deficientes Visuais foi o intenso ´NANOFILME:

"A Barreira Do Som, de Sylvaim Barré, 2005 " O meu interesse neste tema da cegueira vem da minha infância,onde os relatos dos tempos da Primeira República, quando meu Bisavô  Bernardino de Campos, Governante do Estado de São Paulo, teria viajado para a Alemanha tentar através de uma cirurgia oftalmológica barrar um Glaucoma que se instalava. De navio - a VAPOR - foi e voltou. Obviamente já cego. Então a AUDIODESCRIÇÃO entrou em minha vida através dos relatos familiares. Contavam que, meu avo, sentava-se com seu pai e lia todos os dias os jornais para ele.  Voltei  fazer o curso este ano de 2013. Desta vez na UNICAMP. Surpreendida emocionei-me ao saber que retornava ao TEMA no curso, já com um caminho construído  e podendo ser citado como exemplo o trabalho e o percurso percorrido através  da palestra na Livraria Cultura de Campinas com a apresentação para o evento CINEPSICÁNALISE  em  outubro de 2012. 
Abaixo com o título "ENTRE A SOMBRA E A LUZ" elaborei a audiodescrição que foi validada e lida por Bell Machado com a EXPERIÊNCIA NO ESCURO.

"Foto em branco e preto. Em primeiro plano, iluminado, um adolescente sentado numa cadeira de rodas olha para a bola e levanta uma raquete de tênis com as duas mãos. A foto foi tirada no instante em que a bola de tênis ainda está no ar para ser rebatida. Ao fundo, uma luz é projetada na parede e vemos a sombra do adolescente na cadeira de rodas com a raquete. A bola de tênis está no espaço entre a raquete e sua sombra na parede. O adolescente usa uma camiseta sem mangas e um relógio esportivo no braço esquerdo. Abaixo da foto, no canto esquerdo, está escrito:  
Fotógrafo Vanderlei Kupicki".  

Este trabalho foi realizado junto ao CEPE - CENTRO ESPORTIVO PARA PESSOAS ESPECIAIS em Joinville - Santa Catarina : www.cepe.esp.br na apresentação e bate-papo do filme VERMELHO COMO O CÉU.
1- P.S.:NOTÍCIAS da Bell Machado, hoje mestranda de Cinema s Assessora da Secretaria Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida. -"Desta vez a parceria é com SBU / LAB Unicamp e as inscrições no curso de Audiodescrição rapidamente se esgotaram! 
Abraços a todos aqueles que lutam, juntos, pela inclusão".
http://www.campinas.sp.gov.br/noticias-integra.php?id=18123

terça-feira, 2 de abril de 2013

A TODOS QUE APOIARAM A ALDEIA MARACANÃ E O MOVIMENTO TAMOIO DOS POVOS ORIGINÁRIOS



CABRAL DE 1500 A 2013

“Existe um mundo ideal. Também existe o mundo real. Saber o tempo certo entre os dois e conseguir garantir que seus ideais não sejam completamente aniquilados é o que nos torna sábios.”

Em reunião no dia 23 de março no Hospital de Curupaiti em Jacarepaguá, as etnias indígenas Pataxó, Tukano, Guarani, Puri, Apurinã, Tupinambá, Kaingáng, e Sateré-Mauwé residentes na Aldeia Maracanã desde a sua ocupação em 2006, decidiram divulgar nota à imprensa e aos diversos movimentos sociais que nos apoiaram nestes seis anos e cinco meses de resistência em defesa de um projeto indígena para o Rio de Janeiro, para informar os motivos da saída do antigo Museu do Índio, no dia 22 de março, após todas as tentativas da permanência naquela aldeia.
Importante recuperarmos como e porque foi formado o Movimento Tamoio dos Povos Originários, que planejou a ocupação do prédio na Mata Machado, antigo Museu do Índio, em 20 de outubro de 2006. Há cerca de dez anos algumas etnias já realizavam um trabalho educativo nas escolas e universidades, com o objetivo de divulgar a história dos nossos povos contada por nós, desconstruindo os conteúdos deturpados da maioria dos livros didáticos. O amadurecimento sobre tal ocupação demonstrou a necessidade de termos um espaço para ampliarmos esse trabalho, bem como estimularmos a vinda de outras etnias. Era necessário também dar visibilidade às nossas lutas, reivindicações e projetos realizados em escolas muito antes da Lei (11.645/08), que tornou obrigatória a inclusão da cultura dos indígenas nos estabelecimento de ensino. Portanto, nosso bem maior sempre foi a ampliação do projeto em curso em vários espaços neste estado. Ocupar o prédio tornou-se vital para aglutinar diversas etnias e garantir a visibilidade da cultura indígena
Várias reuniões foram feitas e a decisão de ocupar o imóvel do Antigo Museu do Índio, localizado no centro histórico de resistência Tupinambá e Tamoia contra a invasão portuguesa, foi a mais acertada. Ali estavam os espíritos de nossos antepassados e era chegada a hora de voltarmos para casa.
Organizamos o 1ª Seminário dos Povos Originários no auditório da UERJ e dali, saímos em caminhada para a Rua Mata Machado. A mãe natureza nos enviou uma chuva fina que ajudou a esvaziar as ruas do trajeto pensado, facilitando a nossa retomada, estremecida apenas pela surpresa do vigia que, assustado, apontou sua arma para nós. Dialogamos e mostramos que éramos indígenas e estávamos apenas voltando para a casa de nossos ancestrais pais.
Ao cantarmos e dançarmos, ele se acalmou e nos alojamos naquele espaço sem luz, nem água, com entulhos espalhados por toda parte, com ratos, baratas e mosquitos. A alegria de retomarmos a aldeia de nossos ancestrais nos deixou felizes, apesar das condições precárias.
A cada dia, tínhamos uma batalha a vencer e durante todos esses anos tentamos negociar o direito da posse legítima do Museu abandonado pelo poder público. Outros desafios chegaram. Por ocasião da Copa, as ameaças constantes de desocupação para transformar aquele espaço em estacionamento, nos consumiram na luta contra tal proposta absurda, prejudicando o projeto de difusão da nossa cultura.
Solicitamos audiência com o Ministério da Agricultura, pois o prédio estava sob sua responsabilidade; fizemos contatos com diversos parlamentares estaduais e federais, buscando ajuda para a negociação pretendida; buscamos apoio de universidades, antropólogos, estudiosos e todas as entidades que acreditávamos que poderiam contribuir na busca dessa negociação. Portanto, reafirmamos nossa total disposição de negociar para a continuidade dos nossos objetivos de resgate e difusão da cultura dos povos indígenas, tornando aquele Museu um Centro de Referência de nossa cultura, nesta cidade que já foi palco de outras iniciativas violentas contra nossos parentes e citamos, por exemplo, o que fez o então governador do Rio de Janeiro, Antonio Salema, quando reuniu poderoso exército com gente da Guanabara, São Vicente e Espírito Santo, tendo como objetivo liquidar o último bastião da "Confederação dos Tamoios". Após o cerco e a rendição da fortaleza franco-tamoia, dois franceses, um inglês e o pajé tupinambá foram enforcados; 500 guerreiros foram assassinados a sangue frio e aproximadamente 1500 índios foram escravizados. As tropas vencedoras ainda entraram pelo sertão, queimaram aldeias, mataram mais de 10.000 índios e aprisionaram outros tantos. Os sobreviventes refugiaram-se na Serra do Mar e Cabo Frio.
Destacamos, pois, os motivos que nos fizeram escolher o caminho da negociação pacífica e não o caminho que colocaria em perigo não só a perda do nosso projeto, como também o que levaria às ações violentas como as que foram utilizadas naquele dia, espelho do que tem sido as formas de violência registradas na história dos povos indígenas em nosso país, há 513 anos, que lutaram e continuam lutando pela demarcação de nossas terras, do resgate de nossa cultura, pelo direito à educação e saúde diferenciada, pelo respeito à nossa dignidade:
1- * em primeiro lugar, sempre tratamos os nossos parentes com responsabilidade e zelo e nunca aceitaríamos que eles viessem das aldeias para entrarem em confronto com a polícia, que sabemos ser truculenta, a serviço do estado. Portanto, a responsabilidade que sempre tivemos com nossos pares em garantir a integridade física daqueles que têm em nós confiança nos motivou a aceitar uma saída pacífica para todos os integrantes da Aldeia; infelizmente, parte dos indígenas decidiu ficar e resistir, sem negociação.
2- * nosso projeto tem dez anos de existência, portanto, muito mais antigo do que a ocupação do prédio do Antigo Museu do Índio e esgotadas todas as formas de negociação pelo prédio, tivemos que fazer a “Escolha de Sofia” e optamos pela continuidade do projeto em outro espaço.
3- * diante da reintegração de posse do imóvel garantida ao Governo, o Secretário de Direitos Humanos Zaqueu nos cobrou uma posição visto que desde o dia 15 de janeiro tentava uma resposta sobre a proposta enviada ao Conselho da Aldeia Maracanã, afirmando que não havia mais tempo para a continuidade da negociação. Queremos reafirmar que repudiamos a forma truculenta e desumana que fomos tratados pela Polícia Militar por determinação do governo, desrespeitando inclusive o que estava estabelecido no documento de reintegração. Exigimos retratação do senhor Secretário Municipal de Cultura, Sérgio Sá Leitão, que declarou na mídia seu pensamento preconceituoso e discriminatório contra os povos indígenas. Não admitimos que um Secretário de Cultura não entenda a importância do nosso movimento que primou todos esses anos em propagar a cultura indígena nas escolas inclusive do Município do Rio de Janeiro, fazendo um trabalho que deveria ser feito pela Secretaria de Cultura deste município e que nunca fez. Reafirmar nossa trajetória histórica pelo dialogo e que somos povos pacíficos. Enquanto a polícia militar nos confrontava com spray de pimenta, bombas de efeito moral, balas de borrachas e armas sônicas, o que tínhamos para nos defender eram apenas nossos maracás e nossos cantos evocando nossos ancestrais. Repudiamos toda e qualquer ação que tentou dividir as diversas etnias que por seis anos estiveram reunidas naquele espaço.
Queremos expressar a nossa emoção ao sermos recebidos de forma fraterna pelos moradores da Colônia Curupaiti, que são igualmente discriminados por terem tido hanseníase. Queremos dizer que estaremos juntos, desenvolvendo inclusive, junto com eles, um trabalho de combate a todas as formas de discriminação, mas não descansaremos até que o governo cumpra o acordo da construção da nossa Aldeia até junho deste ano.
MUKAMUKAU TAMOIO!
Assinam esta nota:
Carlos Tukano- cacique
Garapirá Pataxó-vice-cacique
Afonso Apurinã
Caio Pataxó
Dauá Puri
Dantiê Tupinambá
Elvira Sateré-Mauwé
Magangá Pataxó
Nativa Pataxó
Pacari Pataxó
Marize Guarani
Tehé Tupinambá
Vangri Kaingang

segunda-feira, 1 de abril de 2013

DIA MUNDIAL DA CONSCIENTIZAÇÃO DO AUTISMO


 
Cristo Redentor ganha iluminação especial em celebração ao Dia Mundial da Conscientização do Autismo
Iluminado de Azul! É assim que os principais monumentos do Brasil ficarão entre os dias 1º e 07 de abril, em homenagem ao Dia Mundial de Conscientização do Autismo, que é celebrado no dia 2 de abril, data decretada pela ONU – Organização das Nações Unidas, desde 2008. A ação ganha destaque pela ONG Autismo & Realidade, que marcará a data com a iluminação em azul, cor definida para o autismo, em vários prédios e monumentos importantes, entre eles a Ponte Estaiada e o Monumento das Bandeiras em São Paulo; o Cristo Redentor no Rio de Janeiro; o Prédio do Senado, em Brasília; Elevador Lacerda na Bahia; e o prédio da Justiça Federal, na Paraíba.A grande festa será em Aparecida do Norte – SP, o segundo maior templo católico do mundo fará uma comemoração especial, com a apresentação da orquestra sinfônica na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, além da iluminação azul.
Este é o sexto ano do evento mundial, que pede mais atenção ao transtorno do espectro autista. Hoje, nos Estados Unidos, estima-se que uma em cada 50 crianças é diagnosticada com autismo, fazendo com que seja mais comum que o câncer infantil, o diabetes juvenil e a AIDS pediátrica juntos. Isso não significa um crescimento da síndrome, mas sim, que cada vez mais, aumenta-se o diagnóstico precoce, trazendo possibilidades para as famílias procurarem apoio e tratamento adequdo. O Brasil ainda não possui dados sobre quantas pessoas tem autismo no País.
ONG Autismo & Realidade
Criada em Julho de 2010, a ONG Autismo & Realidade tem como principal objetivo aprofundar e divulgar conhecimento atualizado sobre o Autismo, com campanhas e atividades direcionadas a motivar e orientar as famílias na sua busca por diagnóstico correto, tratamento, educação e inclusão social da pessoa com autismo. A Autismo & Realidade atende a todas as pessoas do espectro autista, seus familiares, profissionais e entidades que necessitem de informações e conhecimento. Elas podem participar de todas as atividades promovidas pela ONG, além de obter informações pelo site www.autismoerealidade.org, incluindo acesso ao manual “Kit dos 100 dias”. A Autismo & Realidade foi autorizada pela Autism Speaks – referência em Autismo – a traduzir e adaptar o conteúdo “Autismo: Manual para as Famílias” e publicá-lo no site. O manual traz informações gerais sobre autismo que são necessárias e úteis para as famílias cujos filhos foram diagnosticados recentemente. Fundada por um grupo de pais, liderados pelo Prof. Dr. Marcos Tomanik Mercadante, a ONG Autismo & Realidade ainda luta para eliminar preconceitos, despertar interesse e boa vontade da sociedade brasileira, apoiar a formação e capacitação de profissionais e instituições para trabalhar pela pessoa com autismo, investir em pesquisas e agir para que os direitos legais das pessoas com autismo e suas famílias se apliquem corretamente.

Serviço: ONG Autismo & Realidade  www.autismoerealidade.org   Endereço: Rua Guarará, 529 – 9º andar cj. 91 – Jardim Paulista – São Paulo – SP Tel.: (11) 2389.4332 Fonte: http://www.reporterdiario.com.br/  

quinta-feira, 14 de março de 2013

EPIGENÉTICA , AMBIENTE E GENOMA

EPIGENÉTICA Moshe Szyf

Agência FAPESP – Um dos primeiros cientistas a sugerir que os hábitos de vida e o ambiente social em que uma pessoa está inserida poderiam modular o funcionamento de seus genes foi Moshe Szyf, professor de Farmacologia e Terapêutica da Universidade McGill, no Canadá.
Szyf também foi pioneiro ao afirmar que essa programação do genoma – que ocorre por meio de processos bioquímicos batizados de mecanismos epigenéticos – seria um processo fisiológico, uma espécie de resposta adaptativa ao ambiente que começa ainda na vida uterina. Entre os mecanismos epigenéticos conhecidos, o mais comum e o mais estudado por Szyf é a metilação do DNA, que ocorre quando um conjunto de partículas de hidrogênio e carbono se agrupa na base de alguns genes e impede que eles se expressem. Embora o processo seja fisiológico, pode se tornar patológico quando acontece no contexto errado. Por exemplo, quando os genes que deveriam nos proteger contra o câncer são desligados. Pesquisas realizadas pelo grupo de Szyf e colaboradores nos últimos anos mostraram que o padrão de metilação do DNA pode ser alterado por fatores como a qualidade do cuidado materno nos primeiros anos de vida ou a exposição a maus-tratos na infância, criando marcas epigenéticas que perduram ao longo da vida.
Os resultados de alguns desses estudos foram apresentados por Szyf durante o Simpósio Internacional Integração Corpo-Mente-Meio, realizado na sede da FAPESP no dia 12 de março, em parceria com a Natura.
Em um trabalho de 2004, feito com o neurocientista Michael Meaney, também da Universidade McGill, foram comparados dois grupos de ratas: aquelas que tinham recebido lambidas frequentes de suas mães quando ainda eram bebês e aquelas que não haviam recebido cuidados maternos. Os resultados mostraram que os animais lambidos pelas mães se tornaram adultos mais tranquilos. Isso porque o amor materno alterou os níveis de metilação nas regiões do hipocampo que regulam o gene do receptor de glicocorticoides, ou seja, alteraram a regulação dos níveis de hormônios do estresse durante toda a vida adulta. Para mostrar que essa lógica se aplicava também a humanos, os pesquisadores da McGill se associaram ao Instituto Universitário de Saúde Mental Douglas, também do Canadá, e ao Instituto de Ciências Clínicas de Cingapura, para analisar cérebros de vítimas de suicídio.
Por meio de seus históricos médicos e de entrevistas com familiares, foi possível identificar entre os suicidas aqueles que tinham sofrido abuso severo durante a infância – seja verbal, sexual ou físico.
Os pesquisadores viram que nesse grupo que teve uma infância difícil os genes que regulam os receptores de glicocorticoides estavam 40% menos ativos quando comparados aos dos suicidas que não sofreram abuso e também quando comparados aos do grupo controle (pessoas que morreram por outras causas, como acidentes de carro).
Os resultados sugerem, portanto, que o abuso infantil deixou essas pessoas mais sensíveis aos danos causados pelo estresse no cérebro; eles foram publicados em 2009 na revista Nature Neuroscience.
Em outros estudos apresentados durante o evento, o cientista mostrou que o padrão de expressão dos genes também pode ser influenciado pela condição socioeconômica na infância e pelo estresse vivenciado pela mãe durante a gestação.
“O avanço no conhecimento sobre a relação entre o ambiente e o genoma ajuda a combater o determinismo genético, ou seja, aquela ideia de que, se você nasce com genes da inteligência, você será inteligente, e se você nasce com genes saudáveis, você será saudável, não importa o que você faça a respeito. Isso coloca mais peso em nossas escolhas. Mostra que temos controle enquanto pais, enquanto formuladores de políticas públicas e enquanto sociedade. Isso pode definir novos modelos para políticas públicas”, disse Szyf à Agência FAPESP.
Para o pesquisador, muitas coisas na prática médica e no cotidiano têm sido feitas sem levar em conta as consequências disso no futuro, mas o avanço no conhecimento sobre a epigenética deve mudar a atitude das pessoas. “Quando eu era um jovem pai, a ideia predominante era deixar a criança chorar para ela aprender a se virar sozinha. Hoje não fazemos isso porque temos medo do estresse que isso vai causar e de suas consequências. Da mesma forma, temos feito fertilização in vitro, barriga de aluguel, cesarianas desnecessárias sem pensar muito sobre as consequências disso para a criança. Precisamos começar a avaliar o custo-benefício e tomar decisões conscientes, com base em informações”, defendeu.
No campo da medicina, a epigenética traz outras implicações importantes. Uma delas é a possibilidade de identificar biomarcadores que permitam identificar a população mais vulnerável a desenvolver doenças como câncer, infarto, pressão alta ou transtornos mentais.
“O maior desafio é encontrar formas de intervir antes que os sinais clínicos apareçam e a situação se deteriore. Por isso, é tão importante entender o que torna as pessoas vulneráveis. Esse conhecimento também vai nos guiar quanto ao tipo de intervenção mais adequada”, disse.
No rol das intervenções epigenéticas possíveis, afirmou Szyf, estão as drogas capazes de reverter as alterações no padrão de expressão dos genes – algo que já é feito na área de oncologia e começa a ser testado na área psiquiátrica. Intervenções epigenéticas podem ser feitas também por meio de psicoterapia ou de políticas públicas que promovam a mudança do comportamento. “A grande revolução virá quando aprendermos como nos comportar para atingir o mesmo efeito que as drogas são capazes de promover. Descobrir como intervir no sistema de forma que se possa reverter adaptações epigenéticas adversas unicamente pelo comportamento”, afirmou.
Parceria entre FAPESP e Natura
O Simpósio Internacional Integração Corpo-Mente-Meio também contou com a participação do professor Paul Rozin, da Universidade da Pennsylvania (Estados Unidos), que falou sobre as perspectivas na área de Psicologia Positiva – definida como o estudo das forças e virtudes que permitem aos indivíduos e às comunidades prosperar.
Também participaram os brasileiros Silvia Koller, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Mirian Galvonas Jasiulionis, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Edson Amaro Júnior, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Respectivamente, eles apresentaram o cenário nacional das pesquisas em Psicologia Positiva, Epigenética e Neurociências.
Segundo o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, as discussões do evento vão embasar a elaboração de um edital que será lançado pela Fundação e pela Natura para a criação de um ou mais centros de pesquisa nos moldes do CEPID (Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão), caso em que o financiamento pode durar até dez anos.
“Queremos aprender mais sobre os desafios relacionados a esses temas para que possamos definir como será o financiamento, qual é a melhor forma de montar a armadilha para o conhecimento e obter bons resultados. Nem sempre é simples acertar o relacionamento entre as pessoas das universidades e as pessoas das empresas. Sempre há objetivos não convergentes. Nossa tarefa é achar as convergências possíveis”, afirmou Brito Cruz.
Além do diretor científico da FAPESP, também participou da abertura do evento o diretor de Ciência e Tecnologia da Natura, Victor Fernandes. "Estamos aqui tentando entender qual é a interface científica entre três ciências muito relevantes: Neurosciência Comportamental, Psicologia Positiva e Epigenética. O objetivo é entender como o comportamento e o cotidiano influenciam o comportamento biológico e, em cima disso, buscar oportunidades de fomento à ciência e à inovação", destacou.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A NATUREZA DA PRESERVAÇÃO



CÉLULAS DA PRESERVAÇÃO - AS MÃES
Agência FAPESP – Na natureza há diversas espécies (além da humana) que realizam ações altruístas para garantir a sobrevivência de suas proles. Alguns exemplos extremos são os ursos polares fêmeas – que ganham até 200 quilos durante a gestação e passam por um jejum nos oito primeiros meses de vida de seus filhotes, de modo a prover um leite rico em gordura. Ou as “mamães” aranhas, da espécie Stegodyphus, que permitem que seus rebentos a matem para lhes servir de alimento. Um estudo publicado na revista Science, realizado por um grupo internacional de pesquisadores, do qual participaram dois brasileiros, revelou que as menores porções de matéria viva – as células – também fazem sacrifícios para assegurar a continuidade de suas futuras gerações. Os pesquisadores constataram que durante o processo de divisão celular (mitose) – pelo qual uma célula “mãe” se divide para dar origem a uma célula “filha” – a célula “materna” fornece muito mais mitocôndrias (estruturas internas essenciais para a sobrevivência de qualquer vida celular) para sua “cria” do que se esperaria pela razão entre os volumes delas – a célula filha é menor do que a célula mãe. A descoberta sugere a hipótese de que, tal como na natureza, as células mães se sacrificariam para aumentar as chances de sobrevivência de suas filhas. “Essa constatação é inédita e contraria a intuição de que as mitocôndrias são divididas de forma proporcional à densidade [volume] das células mães e das células filhas. Elas quebram essa regra”, disse Luciano da Fontoura Costa, professor do Departamento de Física e Informática do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), campus de São Carlos, e um dos autores do estudo. Costa é um dos pesquisadores principais de um Projeto Temático, realizado com apoio da FAPESP, coordenado pelo professor Roberto Marcondes Cesar Junior, do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, e realiza um projeto de pesquisa no âmbito do acordo da FAPESP com a Universidade de York, do Reino Unido. O pesquisador foi orientador da iniciação científica, do doutorado e do pós-doutorado – todos realizados com Bolsa da FAPESP – de Matheus Palhares Viana, o segundo pesquisador brasileiro participante do estudo. Viana atualmente faz pós-doutorado na Universidade da Califórnia em Irvine no grupo da pesquisadora Susanne Rafelski – a primeira autora do trabalho, com o professor Wallace Marshall, da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos. O estudo também contou com a participação de pesquisadores da Universidade de Pequim, na China. Para estudar o processo de transferência de mitocôndrias entre as células, os pesquisadores usaram leveduras Saccharomyces cerevisiae – comumente utilizadas na produção de pão e de cerveja. Por meio de sofisticadas técnicas de microscopia, a equipe internacional – liderada por Marshall e Rafelski – captou imagens das células das leveduras em um microscópio confocal (fluorescência) e promoveu um processo de fatiamento óptico das mitocôndrias presentes nelas, nas quais as estruturas são fragmentadas em diversos pedaços, como peças de um quebra-cabeça. Por meio de métodos de computação específicos para o processamento de imagens – desenvolvidos inicialmente durante outro Projeto Temático, realizado com apoio da FAPESP, do qual Costa também participou –, o pesquisador e Viana juntaram as “fatias” das mitocôndrias, fizeram a reconstrução tridimensional (em 3D) das estruturas e a representaram na forma de redes (grafos). Dessa forma, conseguiram reproduzir em detalhes e medir o tamanho físico das redes mitocondriais – que tendem a diminuir continuamente ao longo das gerações sucessivas das células. Os pesquisadores observaram que, no caso das células de levedura, no entanto, o tamanho da rede mitocondrial aumentava com o crescimento das células, e que essa relação de escala ocorria, principalmente, pela raiz. “Se as mitocôndrias fossem divididas aleatoriamente e a densidade das células fosse mantida constante, esperava-se encontrar menos mitocôndrias nas células filhas do que nas células mães. O que se descobriu nesse trabalho é que a célula mãe dá mais mitocôndrias do que se esperava para a célula filha”, disse Costa à Agência FAPESP. De acordo com os pesquisadores, em vez de as leveduras “mães” fornecerem quantidade suficiente de mitocôndrias para seus descendentes, de forma a garantir sua própria sobrevivência, elas transferiam muito mais organelas do que o necessário, mesmo à custa de suas vidas. A maioria delas começou a morrer passadas dez gerações. Já formas mutantes de leveduras, muito mais “avarentas” para fornecer suas mitocôndrias às futuras gerações, viveram por muito mais tempo.

Abordagem complementar
Segundo Costa, a descoberta desses mecanismos de divisão poderá ser estendida para outros organismos e tecidos. As células-tronco humanas e algumas células cancerosas, por exemplo, muitas vezes se dividem em duas células que se parecem e se comportam de forma muito diferente. Em função disso, na opinião do pesquisador, estudos de biologia de sistemas como o que realizaram – que usam abordagens de ciências exatas, como métodos quantitativos de matemática, física e computação, e vão além da análise molecular – complementam a pesquisa em genética. De acordo com Costa, as pesquisas sobre o genoma – hoje feitas em maior escala do que os estudos de biologia molecular – são insuficientes para entender um organismo como um todo porque diversos genes não são expressos, por exemplo.
“Os genes, em princípio, indicam como construir uma proteína, por exemplo. Mas o fato de se ter um gene não significa dizer que o organismo vai ter esta determinada proteína expressa”, disse.

“Existe todo um controle na maquinaria celular que determina se essa proteína será expressa ou não. E esse controle, inclusive, depende da geometria do embrião e se já foram formados certos tecidos e estruturas anatômicas que são usados como sinalização para expressão de genes e servem como andaimes para construir o resto de um organismo”, disse Costa. O artigo Mitochondrial network size scalling in building yeast (doi:10.1126/science.1225720), de Luciano da Fontoura Costa e outros, pode ser lido em www.sciencemag.org/content/338/6108/822.full.




11/03/2013 Por Elton Alisson