Ferramenta criada para a disciplina “Tópicos Avançados em Ambiente e Sociedade I”oferecida pelo Nepam - Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Unicamp com o objetivo de propor discussões sobre educação, ambiente e sociedade a partir de materiais provenientes de diferentes áreas, incentivando e permitindo o encontro com a diversidade do pensamento.
IMPOSTOS EM SÃO PAULO
terça-feira, 14 de junho de 2016
quinta-feira, 9 de junho de 2016
COMO RE-DESCOBRI AQUELES OLHOS AZUIS
Espécie considerada
extinta por cientistas foi avistada no interior de Minas Gerais
Foto: Rafael Bessa / BBCBrasil.com
Há 75 anos, a ave não era avistada na natureza. Desde 1941, a Columbina cyanopis , ou rolinha-do-planalto, como é chamada no Brasil, só podia ser apreciada por meio de espécimes preservadas em museus. Isso começou a mudar depois de um lance de sorte vivido pelo ornitólogo Rafael Bessa, que, em julho de 2015, estava em uma região do interior mineiro (que está sendo mantida em segredo por razões explicadas mais abaixo) para fazer um levantamento. O pesquisador havia decidido pegar um atalho no caminho entre seu hotel e o local onde realizaria seu trabalho. Na rota, decidiu parar em um certo ponto para apreciar e fotografar a vista. Foi quando ouviu sons de um animal que não reconheceu. Bessa voltou ao local no dia seguinte para registrar o canto do animal e, ao reproduzir a gravação, atraiu em sua direção um pássaro, que pousou em um arbusto a alguns metros de distância. "Olhei pelo binóculo, e minhas pernas começaram a tremer. Sabia que tinha um verdadeiro fantasma na minha frente. Foi um momento de muita emoção, indescritível. Estava muito feliz e nervoso ao mesmo tempo", diz Bessa. "Só pensava em documentar e aproveitar o momento. Até então, não sabíamos absolutamente nada sobre a espécie, e aqueles poucos minutos de observação poderiam significar muito para a conservação da rolinha."
Raridade
Pesquisadores já identificaram 12
rolinhas-do-planalto
Foto: Rafael Bessa / BBCBrasil.com
Bessa explica que a
rolinha-do-planalto sempre foi considerada uma espécie rara e dificilmente era
avistada mesmo quando seu habitat, o cerrado brasileiro, ainda era bastante
preservado, até meados da década de 1950. "Até então, não se entendia o
por quê dessa raridade, e o pouco que sabemos hoje não nos permite ter certeza
do motivo, mas acreditamos que a espécie ocorre em uma fisionomia de cerrado
muito específica e também rara", diz o ornitólogo. "Soma-se a isto o
fato do cerrado ser um dos ecossistemas brasileiros que mais perdeu área para a
agricultura e pecuária nas últimas décadas, fato que certamente contribuiu para
sua atual raridade."
Cientistas estão
criando um plano de conservação da espécie e proteger seu habitat
Foto: Rafael Bessa / BBCBrasil.com
Desde que o primeiro exemplar foi
identificado por Bessa, 12 rolinhas-do-planalto foram ao todo avistadas por
pesquisadores, com o apoio da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil
(SAVE Brasil), o Observatório de Aves do Instituto Butantan e a ONG Rainforest
Trust. A ave possui uma plumagem de coloração predominantemente
castanho-avermelhada e é bem menor do que outras rolinhas. A espécie ainda
chama atenção por seus olhos azulados e manchas da mesma cor nas asas.
Agora, cientistas
trabalham para traçar planos de conservação da espécie, o que implica em
proteger a área onde foi encontrada, além de compreender suas características e
o que necessita para sobreviver. Até que o plano seja concluído, o
local onde os espécimes foram achados e seu canto não serão divulgados, para
evitar um grande fluxo de observadores de pássaros para a região, o que poderia
afugentar o animal. "No momento, sabemos da existência de 12 exemplares, o que é um
número muito baixo para garantir a conservação de qualquer espécie. Já
realizamos expedições em busca de novas populações, mas até o momento não
obtivemos êxito", afirma Bessa.
Ave tem plumas castanhas com manchas
azuis nas asas e olhos também azulados
O ornitólogo diz
que a redescoberta da Columbina cyanopis em uma área remota
do Brasil, em meio a um ambiente frágil e raro, serve como um "exemplo de
como conhecemos pouco sobre nossa biodiversidade". "Existem ainda
pelo menos uma dezena de espécies que estão desaparecidas há mais de dez anos e
que correm o risco de serem extintas em um curto espaço de tempo", afirma
Bessa. Ele faz críticas ao que considera uma tentativa de fragilizar a
legislação ambiental do país para favorecer a criação de empreendimentos
comerciais. "Um empreendimento de pequeno porte na área onde vive a
rolinha seria suficiente para destruir o ambiente onde encontram-se os únicos
12 indivíduos que temos notícia dessa espécie nos últimos 75 anos", afirma
Bessa. "Garantir a conservação da Columbina nessa área especial
ajudará não só a rolinha-do-planalto, mas também muitas outras espécies de
animais ameaçadas de extinção que ocorrem em seu ambiente."
segunda-feira, 6 de junho de 2016
terça-feira, 3 de maio de 2016
O DESASTRE AMBIENTAL DE MARIANA E SUAS CONSEQUÊNCIAS.
Além de diversas espécies já conhecidas, o desastre ambiental de
Mariana, em Minas Gerais, pode ter afetado uma enorme variedade de outros
organismos marinhos ainda pouco estudados que ocorriam em regiões atingidas
pela lama tóxica vazada da barragem de rejeitos de minério de ferro, que rompeu
no início de novembro. Um desses organismos é a extremamente rara água-viva Kishinouyea corbini Larson, cuja única população
estabelecida e conhecida no Atlântico Sul Ocidental ocorria na Praia dos
Padres, em Aracruz, no Espírito Santo, atingida pela pluma de lama. - “Essa espécie é emblemática da perda de informação sobre diversos
animais da fauna marinha ainda pouco estudados, ou até mesmo totalmente
desconhecidos, que um evento catastrófico como o desastre ambiental de Mariana
pode ter causado”, disse Antonio Carlos Marques, professor do Instituto de
Biociências (IB) e diretor do Centro de Biologia Marinha (CEBIMar) da
Universidade de São Paulo (USP), à Agência FAPESP.
Marques e Lucília Souza Miranda, pós-doutoranda no IB-USP com Bolsa da FAPESP, publicaram artigo na revista BIOTA Neotropica em que chamam a atenção para os
impactos ocultos do desastre ambiental de Mariana sobre a fauna marinha
brasileira, destacando o exemplo da K. corbini. Essa água-viva muito peculiar vive com a boca para cima capturando
alimento, enquanto a maioria das águas-vivas tem a boca para baixo. Ela também
não nada, vivendo presa ao assoalho marinho ou a algum outro organismo por meio
de um pedúnculo. A K. corbini foi
a primeira espécie da classe Staurozoa registrada no Brasil, exatamente na
costa do Espírito Santo. A classe Staurozoa, proposta por Marques há mais de 10
anos, é considerada muito importante na evolução do filo Cnidária – que inclui
as medusas, anêmonas-do-mar, caravelas-do-mar, coraismoles e duros e hidras de
água doce –e um dos primeiros grupos de animais marinhos a surgir nos oceanos.
Segundo Marques, um animal semelhante à K.
corbini pode ter sido o primeiro tipo de medusa dos cnidários.
“A classe Staurozoa é relativamente pequena, composta por cerca de 50 espécies
com distribuição muito concentrada em águas polares e temperadas.” - “Há duas
espécies dessa classe de animais marinhos que ocorrem em áreas tropicais do
Atlântico Sul Ocidental, uma das quais é aK.corbini”, disse. Há
registros no Caribe dessa espécie de água-viva difícil de encontrar e que
muitas vezes se camufla em algas marinhas, mais especificamente em Porto Rico e
no México. No Brasil, há um registro de K.corbini no
arquipélago de Abrolhos, na Bahia, mas que nunca mais foi encontrado. E há
suspeitas de que parte daquela área também pode ter sido igualmente impactada
pelo desastre ambiental de Mariana.
A única população dessa espécie de água-viva conhecida no Atlântico Sul
Ocidental estava situada no litoral do Espírito Santo.
- “Por ser parte de um grupo que vive majoritariamente em águas frias,
com raríssimas espécies em águas tropicais, a população dessa espécie de
água-viva encontrada no litoral do Espírito Santo teria uma história evolutiva
ímpar, relacionada a sua fisiologia, ecologia e interações com outros
organismos em um ambiente tropical, diferente do ambiente ancestral onde se
originou e se desenvolveu”, disse Marques. -“Todas essas particularidades
dessa população de água-viva, que poderiam trazer informações importantes e
únicas sobre a química, a morfologia e o contexto ecológico de todo o grupo e
nos auxiliar a aumentar a compreensão sobre a vida em ambientes com
diferenciação ecológica afetados pelas mudanças climáticas, podem ter sido
perdidas”, estimou. A identidade molecular desses animais encontrados no litoral do Espírito
Santo foi recém-estudada por Miranda em sua pesquisa de doutorado, também
realizada com Bolsa da FAPESP. Mas ainda não havia informações sobre
suas relações tróficas (entre presa e predadores). Além disso, ainda não se
sabia se as populações eram isoladas ou interdependentes, o que torna ainda
mais difícil estimar os efeitos sobre os animais de um evento da magnitude do
desastre ambiental de Mariana, apontam os pesquisadores.
-“É como se diversas páginas cruciais para a compreensão de um livro
tivessem sido arrancadas e seremos obrigados, a partir de agora, a lê-lo sem
ter acesso a esses trechos essenciais”, comparou Marques. Levantamento
de danos De acordo com Marques, que realizou um estudo em parceria com colegas
da Argentina, apoiado pela FAPESP, e coordena umProjeto Temático sobre padrões e processos de
diversificação de cnidários, ainda não é possível estimar os impactos do
desastre ambiental de Mariana na população de água-viva K.corbini encontrada no litoral capixaba. Isso
porque ainda continuam ocorrendo derramamentos esporádicos de lama, que já
percorreu 650 quilômetros ao longo da bacia do rio Doce – considerada uma das
mais importantes bacias hidrográficas da América do Sul –, causando uma enorme
mortalidade de sua biota, em sua maioria enterrada e sufocada pelos sedimentos,
apontam os pesquisadores. - -“É evidente que muitos animais, algas e plantas vão desaparecer em
razão da formação de depósitos espessos de sedimentos porque não estavam
preparados para lidar com catástrofes dessa magnitude. O desastre ambiental de
Mariana equivaleria a catástrofes como erupções de vulcões em pequenas ilhas,
que dizimam uma extensa gama de habitantes das vizinhanças”, comparou Marques. Segundo
ele, ainda não é possível avaliar a real magnitude do desastre ambiental de
Mariana porque o processo ainda não foi concluído. Por isso, será necessário
fazer um acompanhamento da região atingida por muitos anos e fazer buscas e
comparações ao longo do tempo para compreender a resiliência e a recuperação
não só de processos e do ambiente marinho, mas também do ambiente continental. - “A região do litoral do
Espírito Santo atingida pela lama de Mariana apresentava uma grande diversidade
de cnidários, com grandes populações de diferentes espécies”, disse o diretor
do CEBIMar. - “O substrato marinho da
região era tomado por algumas espécies chamadas de construtoras – como
coraismoles, algas e coralíneas, como os rodolitos [algas calcárias] –, que acabam por criar
ambientes peculiares para a existência de outras espécies”, explicou. De acordo
com o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis
(Ibama) e com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICMBio), a lama já atingiu uma área total de quase 7 mil quilômetros quadrados
do litoral capixaba e já pode ter chegado ao arquipélago de Abrolhos - O artigo “Hidden impacts of the Samarco
mining waste dam collapse to Brazilian marine fauna – an example from the
staurozoans (Cnidaria)” (doi: 10.1590/1676-0611-BN-2016-0169),
de Marques e Miranda, pode ser lido na revista BIOTA
Neotropica em www.biotaneotropica.org.br/v16n2/en/abstract?point-of-view+bn00216022016
quarta-feira, 27 de abril de 2016
OS INVOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA - AULA PÚBLICA _ Eduardo Viveiros de Castro
Hoje os que se acham donos do Brasil — e que o são, em ultimíssima análise, porque os deixamos se acharem, e daí a o serem foi um pulo (uma carta régia, um tiro, um libambo, uma PEC) — preparam sua ofensiva final contra os índios. Há uma guerra em curso contra os povos índios do Brasil, apoiada abertamente por um Estado que teria (que tem) por obrigação constitucional proteger os índios e outras populações tradicionais, e que seria (que é) sua garantia jurídica última contra a ofensiva movida pelos tais donos do Brasil, a saber, os “produtores rurais” (eufemismo para “ruralistas”, eufemismo por sua vez para “burguesia do agronegócio”), o grande capital internacional, sem esquecermos a congenitamente otária fração fascista das classes médias urbanas. Estado que, como vamos vendo, é o aliado principal dessas forças malignas, com seu triplo braço “legítimamente constituído”, a saber, o executivo, o legislativo e o judiciário.![]() |
| Eduardo Viveiro de Castro |
Eles são “brasileiros”, algo muito diferente de ser “indígena”. Ser brasileiro é pensar e agir e se considerar (e talvez ser considerado) como “cidadão”, isto é, como uma pessoa definida, registrada, vigiada, controlada, assistida — em suma, pesada, contada e medida por um Estado-nação territorial, o “Brasil”. Ser brasileiro é ser (ou dever-ser) cidadão, em outras palavras, 'súdito' de um Estado 'soberano', isto é, transcendente. Essa condição de súdito (um dos eufemismos de súdito é “sujeito [de direitos]“) não tem absolutamente nada a ver com a relação indígena vital, originária, com a terra, com o lugar em que se vive e de onde se tira seu sustento, onde se 'faz a vida' junto com seus parentes e amigos. Ser indígena é ter como referência primordial a relação com a terra em que nasceu ou onde se estabeleceu para fazer sua vida, seja ela uma aldeia na floresta, um vilarejo no sertão, uma comunidade de beira-rio ou uma favela nas periferias metropolitanas. É ser parte de uma comunidade ligada a um lugar específico, ou seja, é integrar um 'povo'. Ser cidadão, ao contrário, é ser parte de uma 'população' controlada (ao mesmo tempo “defendida” e atacada) por um Estado. O indígena olha para baixo, para a Terra a que é imanente; ele tira sua força do chão. O cidadão olha para cima, para o Espírito encarnado sob a forma de um Estado transcendente; ele recebe seus direitos do alto.
“Povo” só '(r)existe' no plural — povoS. Um povo é uma multiplicidade singular, que supõe outros povos, que habita uma terra pluralmente povoada de povos. Quando perguntaram ao escritor Daniel Munduruku se ele “enquanto índio etc.”, ele cortou no ato: “não sou índio; sou Munduruku”. Mas ser Munduruku significa saber que existem Kayabi, Kayapó, Matis, Guarani, Tupinambá, e que esses não são Munduruku, mas tampouco são Brancos. Quem inventou os “índios” como categoria genérica foram os grandes especialistas na generalidade, os Brancos, ou por outra, o Estado branco, colonial, imperial, republicano. O Estado, ao contrário dos povos, só consiste no singular da própria universalidade. O Estado é sempre único, total, um universo em si mesmo. Ainda que existam muitos Estados-nação, cada um é uma encarnação do Estado Universal, é uma hipóstase do Um. O povo tem a forma do Múltiplo. Forçados a se descobrirem “índios”, os índios brasileiros descobriram que haviam sido 'unificados' na generalidade por um poder transcendente, unificados para melhor serem des-multiplicados, homogeneizados, abrasileirados. O pobre é antes de mais nada alguém de quem se tirou alguma coisa. Para transformar o índio em pobre, o primeiro passo é transformar o Munduruku em índio, depois em índio administrado, depois em índio assistido, depois em índio sem-terra.
E não obstante, os povos indígenas originários, em sua multiplicidade irredutível, que foram indianizados pela generalidade do conceito para serem melhor desindianizados pelas armas do poder, sabem-se hoje alvo geral dessas armas, e se unem contra o Um, revidam dialeticamente contra o Estado aceitando essa generalidade e cobrando deste os direitos que tal generalidade lhes confere, pela letra e o espírito da Constituição Federal de 1988. E invadem o Congresso. Nada mais justo que os invadidos invadam o quartel-general dos invasores. Operação de guerrilha simbólica, sem dúvida, incomensurável à guerra massiva real (mas também simbólica) que lhes movem os invasores. Mas os donos do poder vêm acusando o golpe, e correm para viabilizar seu contragolpe. Para usarmos a palavra do dia, golpe é o que se prepara nos corredores atapetados de Brasília contra os índios, sob a forma, entre outras, da PEC 215.
Os índios são os primeiros indígenas do Brasil. As terras que ocupam não são sua propriedade — não só porque os territórios indígenas são “terras da União”, mas porque são eles que pertencem à terra e não o contrário. Pertencer à terra, em lugar de ser proprietário dela, é o que define o indígena. E nesse sentido, muitos povos e comunidades no Brasil, além dos índios, podem se dizer, porque se sentem, indígenas muito mais que cidadãos. Não se reconhecem no Estado, não se sentem representados por um Estado dominado por uma casta de poderosos e de seus mamulengos e jagunços aboletados no Congresso Nacional demais instâncias dos Três Poderes. Os índios são os primeiros indígenas a não se reconhecerem no Estado brasileiro, por quem foram perseguidos durante cinco séculos: seja diretamente, pelas “guerras justas” do tempo da colônia, pelas leis do Império, pelas administrações indigenistas republicanas que os exploraram, maltrataram, e, muito timidamente, às vezes os defenderam (quando iam longe demais, o Estado lhes cortava as asinhas); seja indiretamente, pelo apoio solícito que o Estado sempre deu a todas as tentativas de desindianizar o Brasil, varrer a terra de seus ocupantes originários para implantar um modelo de civilização que nunca serviu a ninguém senão aos poderosos. Um modelo que continua 'essencialmente' o mesmo há quinhentos anos.
O Estado brasileiro e seus ideólogos sempre apostaram que os índios iriam desaparecer, e quanto mais rapidamente melhor; fizeram o possível e o impossível, o inominável e o abominável para tanto. Não que fosse preciso sempre exterminá-los fisicamente para isso — como sabemos, porém, o recurso ao genocídio continua amplamente em vigor no Brasil —, mas era sim preciso de qualquer jeito desindianizá-los, transformá-los em “trabalhadores nacionais” [2]. Cristianizá-los, “vesti-los” (como se alguém jamais tenha visto índios 'nus', esses mestres do adorno, da plumária, da pintura corporal), proibir-lhes as línguas que falam ou falavam, os costumes que os definiam para si mesmos, submetê-los a um regime de trabalho, polícia e administração. Mas, acima de tudo, cortar a relação deles com a terra. Separar os índios (e todos os demais indígenas) de sua relação orgânica, política, social, vital com a terra e com suas comunidades que vivem da terra — essa separação sempre foi vista como 'condição necessária' para transformar o índio em cidadão. Em cidadão pobre, naturalmente. Porque sem pobres não há capitalismo, o capitalismo precisa de pobres, como precisou (e ainda precisa) de escravos. Transformar o índio em pobre. Para isso, foi e é preciso antes de mais nada separá-lo de sua terra, da terra que o 'constitui' como indígena.
Nós, os brancos que aqui estamos sentados na escadaria da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em 20 de abril de 2016, nós nos sentimos indígenas. Não nos sentimos cidadãos, não nos vemos como parte de uma população súdita de um Estado que nunca nos representou, e que sempre tirou com uma mão o que fingia dar com a outra. Nós os “brancos” que aqui estamos, bem como diversos outros povos indígenas que vivem no Brasil: camponeses, ribeirinhos, pescadores, caiçaras, quilombolas, sertanejos, caboclos, curibocas, negros e “pardos” moradores das favelas que cobrem este país. Todos esses são 'indígenas', porque se sentem ligados a um lugar, a um pedaço de terra — por menor ou pior que seja essa terra, do tamanho do chão de um barraco ou de uma horta de fundo de quintal — e a uma comunidade, muito mais que cidadãos de um Brasil Grande que só engrandece o tamanho das contas bancárias dos donos do poder.
A terra é o corpo dos índios, os índios são parte do corpo da Terra. A relação entre terra e corpo é crucial. A separação entre a comunidade e a terra tem como sua face paralela, sua sombra, a separação entre as pessoas e seus corpos, outra operação indispensável executada pelo Estado para criar populações administradas. Pense-se nos LGBT, separados de sua sexualidade; nos negros, separados da cor de sua pele e de seu passado de escravidão, isto é, de despossessão corporal radical; pense-se nas mulheres, separadas de sua autonomia reprodutiva. Pense-se, por fim mas não por menos abominável, no sinistro elogio público da tortura feito pelo canalha Jair Bolsonaro — a tortura, modo último e mais absoluto de separar uma pessoa de seu corpo. Tortura que continua — que sempre foi — o método favorito de separação dos pobres de seus corpos, nas delegacias e presídios deste pais tão “cordial”.
Por isso tudo a luta dos índios é também a nossa luta, a luta indígena. Os índios são nosso exemplo. Um exemplo de 'rexistência' secular a uma guerra feroz contra eles para desexistí-los, fazê-los desaparecer, seja matando-os pura e simplesmente, seja desindianizando-os e tornando-os “cidadãos civilizados”, isto é, brasileiros pobres, sem-terra, sem meios de subsistência próprios, forçados a vender seus braços — seus corpos — para enriquecer os pretensos novos donos da terra.
Os índios precisam da ajuda dos brancos que se solidarizam com sua luta e que reconhecem neles o 'exemplo' maior da luta perpétua entre os povos indígenas (todos os 'povos' indígenas a que me referi mais acima: o povo LGBT, o povo negro, o povo das mulheres) e o Estado nacional. Mas nós, os “outros índios”, aqueles que não são índios mas se sentem muito mais 'representados' pelos povos índios que pelos políticos que nos governam e pelo aparelho policial que nos persegue de perto, pelas políticas de destruição da natureza levadas a ferro e a fogo por todos os governos que se sucedem neste país desde sempre — nós outros também precisamos da ajuda, e do exemplo, dos índios, de suas táticas de guerrilha simbólica, jurídica, mediática, contra o Aparelho de Captura do Estado-nação. Um Estado que vai levando até às últimas consequências seu projeto de destruição do território que reivindica como seu. Mas a terra é dos povos.
Concluo com uma alusão ao nome de uma rua não muito distante desta Cinelândia onde estamos agora. Em Botafogo existe, como vocês todos sabem, a Rua Voluntários da Pátria. Seu nome provém de uma iniciativa empreendida pelo Império em sua guerra genocida (e etnocida) contra o Paraguai — o Brasil sempre foi bom nisso de matar índios, do lado de cá ou de lá de suas fronteiras. Carente de tropas para enfrentar o exército guarani, o Governo imperial criou corpos militares de voluntários, “apelando para os sentimentos do povo brasileiro”, como escreve o verbete da Wikipedia sobre a iniciativa. Pedro II apresentou-se em Uruguaiana como o “primeiro voluntário da pátria”. Não demorou muito e o patriotismo dos voluntários da pátria arrefeceu; logo o Governo central passou a exigir dos presidentes das províncias que recrutasse cotas de “voluntários”. A solução para esta lamentável “falta de patriotismo” dos brancos brasileiros foi, como se sabe, mandar milhares de escravos negros como voluntários. Foram eles que mataram e morreram na Guerra do Paraguai. Obrigados, escusado dizer. Voluntários involuntários.
Pois bem. Os índios foram e são os primeiros Involuntários da Pátria. Os povos indígenas originários viram cair-lhes sobre a cabeça uma “Pátria” que não pediram, e que só lhes trouxe morte, doença, humilhação, escravidão e despossessão. Nós aqui nos sentimos como os índios, como todos os indígenas do Brasil: como formando o enorme contingente de Involuntários da Pátria. Os involuntários de uma pátria que não queremos, de um governo (ou desgoverno) que não nos representa e nunca nos representou. Nunca ninguém os representou, àqueles que se sentem indígenas. Só nós mesmos podemos nos representar, ou talvez, só nós podemos dizer que representamos a terra — esta terra. Não a “nossa terra”, mas a terra de onde somos, de quem somos. Somos os Involuntários da Pátria. Porque 'outra' é a nossa vontade.
* * *
Notas:
1 “A palavra 'indígena' vem do «lat[im] indigĕna,ae “natural do lugar em que vive, gerado dentro da terra que lhe é própria”, derivação do latim indu arcaico (como endo) > latim] clássico in- "movimento para dentro, de dentro" + -gena derivação do rad[ical do verbo latino gigno, is, genŭi, genĭtum, gignĕre "gerar"; Significa “relativo a ou população autóctone de um país ou que neste se estabeleceu anteriormente a um processo colonizador” ...; por extensão de sentido (uso informal), [significa] “que ou o que é originário do país, região ou localidade em que se encontra; nativo”. (Dicionário Eletrônico Houaiss)
2 O primeiro nome do SPI republicano (Serviço de Proteção aos Índios) era SPILTN: Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais. Foi SPITLN de 1910 a 1918, depois só SPI, até virar FUNAI em 1967, ao cabo de uma CPI que revelou uma infinidade de abusos, desmandos, violências variadas, explorações e outras benesses protetoras conferidas pelo Estado.
*Aula pública do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro durante o ato Abril Indígena, Cinelândia, Rio de Janeiro 20/04/2016
domingo, 24 de abril de 2016
CHERNOBIL : O RENASCIMENTO DA VIDA SEM A INTERFERÊNCIA HUMANA
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| TRAGÉDIA |
Há vida em Chernobil
Trinta anos depois do maior desastre nuclear da história, a fauna e a flora voltam a prosperar na região do acidente que matou 25 mil pessoas. A conclusão dos cientistas é que o homem era mais nocivo à natureza do que a radiação É um espetáculo de natureza bonito de
se ver. Em meio à vegetação de clima frio, pontuada por neve, alces, veados,
corços, javalis e lobos convivem e se reproduzem. Um cenário completamente
diferente de 30 anos atrás, quando a região foi palco do maior acidente nuclear
civil da história da humanidade, a ponto de afastar todas as pessoas de lá. O
desastre de Chernobil matou 25 mil pessoas, fez com que 200 mil deixassem suas
casas e transformou a área em um lugar completamente inabitável para humanos.
Mas é por causa dele que, hoje, a fauna e a flora prosperam no local. Os níveis
de radiação atualmente são 100 vezes menores do que após a tragédia. Só que,
ironicamente, os efeitos são menos catastróficos do que quando os próprios
homens responsáveis pelo desastre habitavam a região. “É muito provável que a
população desses animais em Chernobil seja muito mais numerosa do que antes do
acidente”, disse à ISTOÉ Jim Smith, professor de Ciências Ambientais da
Universidade de Porsmouth, no Reino Unido, e co-autor de um estudo sobre a
região que foi publicado pela revista americana Current Biology. “Isso não
significa que a radioatividade é boa para a vida selvagem, apenas mostra que o
efeito das atividades humanas, como a agricultura, a caça e a exploração
florestal, é muito pior.”
Antes do acidente que tornou a região uma zona de
exclusão abandonada pelos humanos, Chernobil – duas cidades e muitas aldeias –
tinha uma população de 116 mil pessoas que viviam lá e usavam a área para
agricultura, silvicultura, caça e pesca. “A habitação humana e exploração da
área teriam tido um efeito sobre todas as espécies, mas particularmente em
animais predadores como o lobo, o lince e o urso pardo”, afirma Smith. Segundo
o estudo, a primeira vez que linces foram registrados na área de exclusão foi
em 1991. “Nos primeiros anos de trabalho na reserva, senti compaixão pelas
pessoas que foram forçadas a deixar sua pátria, mas ao longo dos anos,
observando a vida selvagem, este sentimento foi substituído por outro. Pensei
mais nos animais”, diz Tatyana De Ryabina, co-autora da pesquisa, que passou
anos estudando sobre a vida selvagem na área de exclusão. Smith acredita que
algumas partes da zona de exclusão podem, um dia, ser habitadas novamente por
pessoas e que se isso acontecer a vida selvagem pode ser novamente prejudicada
pela presença dos humanos. Atualmente, Smith, Adelaide Lerebours, da
Universidade de Portsmouthy, David Copplestone, da Stirling University, e Nel
Willey, da University of the West Of England, estão empenhados no programa
Environment Research Council “Radioactivity and the Environment”, em que
estudam os níveis de radiação e como isso afeta o DNA dos animais, insetos e
plantas que habitam Chernobil.
RENASCIMENTO
Cientistas que estudam a fauna e a flora da região (acima) afirmam que é muito provável que a população de animais seja muito maior do que antes do acidente
quarta-feira, 20 de abril de 2016
UM POUCO DE SABEDORIA DE MUNDOS ANTIGOS PARA PENSAR OS TEMPOS DE AGORA
ou
Como aprender algo sobre a sociedade e
o poder
através de um arcaico livro chinês[1]
Aqueles que nunca esquecem nem por um
momento de ser espertos oprimem inevitavelmente sua natureza essencial. Aqueles
que nunca esquecem de manter as aparências, nem sequer em uma caminhada de cem
passos, sobrecarregam inevitavelmente seus corpos físicos.
Deste modo, a beleza das penas do
pássaro prejudica o esqueleto, a folhagem excessiva dos galhos prejudica a
raiz. Ninguém no mundo pode ser excelente nas duas coisas.
Os governantes das sociedades mais
recentes não tem acumulado o que é necessário para a vida; eles têm diluído a
pureza do mundo, têm destruído a simplicidade do mundo e têm deixado as pessoas
confusas e famintas, transformando a claridade em escuridão. A vida é volátil e
todos se esforçam loucamente. A honradez e a confiança desapareceram, as
pessoas perderam sua natureza essencial, a lei e a justiça contradizem uma a
outra.
Os governantes das épocas decadentes
extraíam os minérios das montanhas, tiravam os metais e as pedras preciosas,
quebravam e poliam conchas, fundiam o bronze e o ferro, e assim nada florescia.
Eles abriam a barriga dos animais prenhes, queimavam os prados, destruíam
ninhos e quebravam ovos, e assim as fênix não apareciam e os unicórnios não
andavam por perto. Eles cortavam árvores para fazer prédios, queimavam bosques
para abrir campos e pescavam em excesso, até o esgotamento dos lagos.
Montanhas, rios, vales e desfiladeiros
eram divididos e eram colocadas fronteiras neles; o tamanho dos grupos de
pessoas era calculado e adaptado a certos números. Máquinas e fortificações
eram construídas para a defesa; as cores das roupas eram regulamentadas de modo
a diferenciar as classes sociais; os prêmios e as penalidades eram usados para
os bons e os indignos. Assim os armamentos se desenvolveram e as lutas
surgiram. A partir disso começou o massacre dos inocentes.
Os governantes e o súditos estão em
conflito e não em convívio amistoso, enquanto os familiares são afastados e não
se mantém juntos. Nos campos, as brotações não perduram, nas ruas não há
pessoas caminhando. Areias auríferas são extraídas, pedras preciosas são todas
arrancadas, as tartarugas são capturadas por causa de seus cascos e têm seus
ventres arrancados. A adivinhação é praticada todos os dias e todo o mundo está
desunido. Os governantes locais estabelecem leis incoerentes entre si e
costumes que se anulam uns aos outros. Eles arrancam as raízes e abandonam a base; estabelecem códigos
penais que os fazem ser severos e exigentes; lutam com armas, agridem pessoas
comuns, matam a maior parte delas. Eles organizam exércitos e criam problemas,
atacam cidades e matam por matar, derrubando o que é elevado e colocando em
perigo o que é seguro. Produzem grandes veículos de ataque e fortificações
redobradas para repelir tropas de combate, e mandam seus batalhões para missões
mortais. Contra um inimigo formidável, de cada cem que partem um retorna.
Aqueles que conseguem obter uma grande reputação podem obter para si uma parte
do território anexado, mas isso custa a morte de cem mil pessoas em combate,
além dos números incontáveis de velhos e crianças que morrem de fome e de frio.
Depois disso o mundo nunca pode estar em paz em sua vida essencial.
O que está estabelecido para os
escalões inferiores não deve ser ignorado nos escalões superiores; o que está
proibido para o povo em geral não deve sr praticado pelos indivíduos
privilegiados.
Por isso, quando os líderes humanitários
estabelecem leis, primeiro eles devem aplicá-las a si mesmos, para testá-las e
comprová-las. Assim, se uma regulamentação funcionar para os próprios
governantes, ela pode ser aplicada à população.
Aqueles que sabem de onde vêm as leis
as adaptam aos tempos; os que não conhecem as origens dos costumes podem
obedecê-las, mas no final terminarão no caos (…) Apoiar o que está em perigo e
colocar ordem no que está em caos não é possível se não houver sabedoria. No
que se refere a falar do passado e citar os antigos, há inúmeros ignorantes que
sabem fazer isso. Por isso os sábios não agem com base em leis que sejam
inúteis, nem dão atenção a palavras que não comprovaram serem eficazes.
Fragmentos do WEN-TZU – A
COMPREENSÃO DOS MISTÉRIOS – ensinamentos de Lao-Tzu
As passagens do texto original foram
tomadas de: antecedentes históricos do Wen-Tzu na Tradição Taoísta,
escrita pelo compilador e tradutor do original chinês, Thomas Cleary.
Estão entre as páginas 14 e 18 do
livro, traduzido por Carlos Cardoso Aveline e publicado pela Editora Teosófica
de Brasília, em 2002.
Seleção e cópia de Carlos Rodrigues
Brandão
[1] Eis o que diz a nota 6, da página 13,
referente à introdução de Thomas Clearly: um parágrafo acima, Thomas Cleary
lembra que o Wen-Tzu foi supostamente escrito no século 8 AC. Cerca de
setecentos anos depois disso temos o século 1 AC como possível data da obra.
Cleary afirma em seguida que a obra foi escrita “uns duzentos anos depois da
abolição da dinastia Chou”. Uma vez que a dinastia terminou em 256 AC, a obra
deve ter sido escrita em meados do século1 AC, na dinastia Han (nota da edução
brasileira).
quinta-feira, 14 de abril de 2016
Lewis Carrol e Alice na oficina de literatua do projeto "continum 2015" Uma experiência
OFICINA DE LITERATURA III - novembro de 2015
Para contar esta experiência trouxe Lewis Carrol e Alice no País das Maravilha
Odila Fonseca
Januário “O Caipira do
Cafézinho
“ Alice começava a enfadar-se de estar sentada no barranco junto à irmã e
não ter nada o que fazer: uma ou duas vezes espiara furtivamente o livro que
ela estava lendo, mas não tinha figuras nem diálogos, - e de que serve um livro
- pensou Alice - sem figura nem diálogos?” Lewis Carrol em Alice no Pais das Maravilhas
Foi
mais ou menos assim que me senti quando entrei “na toca do coelho” lá no Centro Cultural Louis Braille, como
Alice no Pais das Maravilhas e vendo livros com páginas em branco ,sem figura e
nem diálogos. Isso foi em junho durante a preparação do trabalho com artistas
para oferecer “figuras e diálogos” no livro da vida deles. Eram entre mulheres,
homens e um adolescente dez pessoas que, viriam conviver conosco, durante os
próximos cinco meses.
Minha primeira necessidade, por estar coordenando o
projeto, foi trabalhar o campo simbólico. Criar um
símbolo que representasse valores e virtudes. Eu havia escrito aqui no Blog, o
medo que se avizinhava por estar em contato com o desconhecido.
Na
ocasião eu escrevi: - “Shopenhauer na sua
especulação do seu pensamento em O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO",
fala das escolhas que podem permitir a
nós a liberdade sob a inexorabilidade da vontade.
... E ainda o próprio Shopenhauer, numa fábula do
dilema dos Porcos Espinhos, - de que durante o inverno se aconchegavam, mas
diante da dor e do incomodo dos espinhos, afastavam -se para maior conforto (com certeza). Mas ao
desconforto do frio tornavam a se aproximar e a experiência é a da dor,
novamente. - A estas tentativas de achar um meio termo de distância levou Freud
usar esta parábola para escrever Psicologia das Massas e a Análise do Eu e
Outros Textos relacionando o dilema do porco-espinho com a nossa sedimentação
de sentimentos de aversão e hostilidas nos momentos de intimidade - uma das
mais comuns necessidades do ser humano. Por isso , nestas oficinas , tentaremos
equilibrar durante estes meses de convivência
a experiência e a possiblidade entre as relações dolorosas e sair de
qualquer isolamento desprovido de amorosidade.
Por tanto “Não é de Girassóis que
estamos falando” mas do circulo
virtuoso, quando apresentamos o tema AUTORRETRATO para pensar trabalhando o
conceito de AUTOR RETRATO. Num design de um pensamento de Rubem Alves o artista
criou este autorretrato uma vez que os ipês amarelos transformaram-se no seu
símbolo. O artista não copiou o ipê amarelo como o vemos na natureza... mas viu
com o que o “pensamento do feio”, ressecado sem vida aparente,no inverno faz
com o ipê. Transformar as dores da alma e do coração e da mente em flores ...
porque este pode ser o desenho que cada um faz de seu autorretrato. O ipê
amarelo enche nossos olhos no inverno quando passeamos pelas matas e caatingas,
beira de rios e reascendem o sol de forma intensa... e internamente.
“...E é daí que que na sua
sonolência , Alice viu o coelho branco de olhos rosaseos passar apressado, naquele calor insuportável,
mrmurando :
-Aí meu Deus, Aí meu Deus
vou chegar muito atrasado! Para ela era natural o coelho estar apressado... mas
quando tirou o relógio do bolso do colete e olhou saindo apressado, Alice
percebeu que nunca tinha visto um coelho de colete com um relógio no bolso. A
curiosidade levou Alice a correr atras
do coelho ,pelos campos, até ve-lo entrar numa grande toca sob a cerca.” Trecho
de Odila inspirado em Lewis Carrol.
Entrando na “toca do coelho”, encontrei pessoas
interessantes... tinha a sambista, tinha o escultor, tinha o fotógrafo cego mas
tinha o fotógrafo vidente também. Tinha
um senhor sério que dava palestra, e conhecia muitas histórias. Foram eles que
ilustraram estas histórias enquanto comiam sementes de girassóis e passavam
creme de semente de girassóis nas torradas ... e foi lá que conheci:
Uma senhora que parecia rainha,lia um livro sem letras e sem figuras... só
com pontinhos . Encontrei um ilustre conhecedor de cinema e cultura também. Ele
sentia pelo cheiro o material que eu
tinha levado para uma das oficinas. Foi nesta época que conheci um
Gatinho, chamado Dr.Seghatin, que se apressou em saber porque eu via tudo
escuro. Todos ali na Toca do Coelho o
chamavam de Leandro. Foi quando Alice perguntou para ele:
-“ Gatinho Seghatin
(...) Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?
- Isso depende muito de para onde quer ir - respondeu o Gato.
- Para mim, acho que tanto faz... - disse Alice
- Isso depende muito de para onde quer ir - respondeu o Gato.
- Para mim, acho que tanto faz... - disse Alice
- Nesse caso,
qualquer caminho serve - afirmou o Gato.
- ... contanto que eu chegue a algum lugar - completou Alice, para se explicar melhor.”
- ... contanto que eu chegue a algum lugar - completou Alice, para se explicar melhor.”
Depois que Alice se
foi, aproveitamos os conselhos do Gato Leandro e começamos a nos perguntar onde
queríamos chegar. Neste momento foi possível começar a pensar o trabalho. E foi
aí que começamos a colocar metas.
1-
Participar das oficinas oferecidas no Centro Cultural Brailler
2-
Todos os trabalhos deveriam apresentar seus resultados no final de ano, numa exposição de arte.
3-
Mini - Meta: conseguir um público de no mínimo 100 pessoas incluindo
familiares
4-
Participar de um concurso literário na Fundação Blumenau, no dia nacional
do Braille
Todas as metas estavam fora da Toca do Coelho, por isso
tinhamos que despertar e começar a trabalhar.
E assim no dia 14 de dezembro de 2015 conseguimos expor
nossas metas alcançadas, com seus resultados
Conceitos e Valores:
Um entendimento do que é um AUTORRETRATO para si
“Nós só
nos reconhecemos como indivíduos, quando nos vemos no espelho ou numa
fotografia A possibilidade de uma pessoa cega fazer seu próprio auto retrato é,
acima de tudo recuperar a consciência de auto pertencimento, de ser um
Indivíduo Daí, quando volto a ser somente eu, posso decidir qual História devo,
quero ou posso contar A autoria do Retrato, traz a autoria da própria vida” Emmanuelle Garrido Alkmin dezembro de 2015
Paço Municipal-Campinas
Bibliografia:
BÖRÖCZ,
Bálaz; Selfportraits; Portfólio dez anos de construção; 2003/2013 http://www.balazsborocz.com/en/works/1/selfportraits
Local de publicação: Hungria
MACHADO, Isabel Pitta. LEITURA COMENTADA DA CARTA SOBRE OS CEGOS- Diderot. Disponível em http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais15/Sem10/isabelmachado.htm
Programa
Educativo Públicos Especiais;Pinacoteca do Estado de São Paulo. Esculturas
selecionadas e Obras selecionadas do acervo, 2006; Volume 1 e 2;em Braille
VILELA, Ivan. Cantando a Própria História –Editora USP;2015.
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